1. Início
  2. / Curiosidades
  3. / Youtuber encontra antigo ponto de extração de petróleo no meio da Amazônia – Brasil abandonou os equipamentos no local 100 anos atrás
Tempo de leitura 6 min de leitura Comentários 0 comentários

Youtuber encontra antigo ponto de extração de petróleo no meio da Amazônia – Brasil abandonou os equipamentos no local 100 anos atrás

Escrito por Fabio Lucas Carvalho
Publicado em 17/01/2026 às 19:45
Expedição resgata vestígios da exploração de petróleo de 1938 na Serra do Divisor, no Acre, com imagens raras e contexto histórico.
Expedição resgata vestígios da exploração de petróleo de 1938 na Serra do Divisor, no Acre, com imagens raras e contexto histórico.
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
16 pessoas reagiram a isso.
Reagir ao artigo

Expedição registrada por um canal independente de YouTube revela máquinas abandonadas, trilhas históricas e relatos inéditos da tentativa do Conselho Nacional do Petróleo, em 1938, de explorar petróleo na Serra do Divisor, área hoje protegida no extremo oeste do Brasil, expondo desafios logísticos, contexto político do Estado Novo e a rápida regeneração da floresta amazônica após a retirada humana

Uma expedição registrada pelo Canal Lá do B reveluou imagens raras e relatos históricos sobre a incursão do Estado brasileiro na Amazônia, em 1938, quando máquinas e estruturas foram abandonadas após uma frustrada busca por petróleo na região hoje protegida.

A jornada percorreu rios, trilhas fechadas e áreas de floresta densa na Serra do Divisor, no município de Mâncio Lima, no Acre, fronteira com o Peru.

Considerado o ponto extremo oeste do Brasil, o território integra uma das áreas de maior biodiversidade do planeta e guarda marcas pouco conhecidas da presença industrial do século XX.

A narrativa audiovisual documenta a reabertura de caminhos históricos, a visita a estruturas metálicas corroídas pelo tempo e o reencontro com personagens que preservam a memória local, conectando geopolítica, história ambiental e patrimônio esquecido.

Uma jornada até o limite geográfico do país

A expedição teve início a partir de bases locais na Serra do Divisor, com deslocamento fluvial pelo Rio Moa e seus afluentes.

O acesso ao interior do parque exige navegação cuidadosa e longas caminhadas por áreas sem trilhas consolidadas, cenário que pouco mudou desde a primeira metade do século passado.

Mesmo com tecnologia contemporânea, a logística permanece complexa. Em 1938, transportar caldeiras, torres metálicas e tubos de aço para aquele ambiente representava um desafio extremo. O registro evidencia que a dificuldade atual ajuda a dimensionar a magnitude da operação histórica.

O frio atípico para padrões amazônicos, a neblina sobre a serra e a ausência de sinal reforçam o isolamento geográfico que molda a experiência de quem percorre a região.

O projeto do Estado Novo na Amazônia profunda

A incursão de 1938 foi conduzida pelo Conselho Nacional do Petróleo, criado durante o governo de Getúlio Vargas. O órgão antecedeu a Petrobras e simbolizava a busca por autossuficiência energética em um contexto internacional marcado por nacionalismos e tensões pré-Segunda Guerra Mundial.

A Amazônia, já integrada economicamente pelo ciclo da borracha décadas antes, voltou a ser vista como fronteira estratégica. A Serra do Divisor, embora remota, foi escolhida para perfurações exploratórias em busca de petróleo, consideradas promissoras à época.

A tentativa, porém, não encontrou reservas economicamente viáveis. Sem retorno técnico e diante de obstáculos logísticos, a operação foi encerrada, deixando para trás parte significativa do maquinário pesado.

O Buraco da Central e o fenômeno hidrológico persistente

Um dos pontos mais conhecidos da expedição histórica é o chamado Buraco da Central, um poço artificial com cerca de 700 metros de profundidade, perfurado nos anos 1930. A estrutura passou a jorrar água morna rica em minerais, criando um fenômeno natural que persiste até hoje.

O registro audiovisual mostra vapor se formando na superfície do rio, além de peças metálicas ainda visíveis, como caldeiras a vapor usadas para movimentar os equipamentos de perfuração. Relatos locais indicam tentativas frustradas de conter a pressão da água ao longo das décadas.

A área tornou-se ponto de visitação regional, associada a crenças populares sobre propriedades terapêuticas da água, possivelmente ligadas à presença de enxofre.

O reencontro com o esquecido Buraco da Sonda

Diferente do Buraco da Central, o Buraco da Sonda permaneceu praticamente oculto pela floresta por décadas. A trilha até o local estava fechada, exigindo abertura manual do caminho e dependência total do conhecimento de moradores antigos.

Guiados por Edmilson Cavalcante, um dos habitantes mais experientes da região, os exploradores localizaram a antiga estrada construída para a operação petrolífera. Ainda hoje, marcas de pneus de tratores, pedras assentadas manualmente e restos de pontes denunciam a intensa atividade humana do passado.

No ponto final, surge um verdadeiro cemitério industrial: tubos, caldeiras, bases metálicas e a torre de perfuração, consumidos pela ferrugem e parcialmente engolidos pela vegetação.

Máquinas abandonadas e a recuperação da floresta

O contraste entre aço corroído e floresta fechada é um dos eixos centrais do registro. Menos de um século após o desmatamento necessário para a abertura de estradas e instalação de equipamentos, a vegetação retomou quase completamente o espaço.

Árvores crescem sobre antigos leitos de estrada, e raízes atravessam estruturas metálicas. O cenário evidencia a capacidade de regeneração da floresta amazônica quando a pressão humana é interrompida.

A expedição destaca que a estrada, antes larga o suficiente para tratores e transporte de caldeiras, hoje é identificável apenas por detalhes sutis no relevo.

Memória oral e histórias da época da perfuração

O conteúdo do Canal Lá do B incorpora relatos transmitidos por gerações. Edmilson Cavalcante conta que seu pai trabalhou na operação em 1938, transferido para a região como integrante da guarda territorial.

Histórias sobre balsas carregadas de ferro descendo o rio, apelidadas de “burra preta”, revelam o impacto da logística sobre comunidades ribeirinhas. Segundo os relatos, a passagem dessas embarcações era anunciada por rádio, e moradores evitavam o rio devido à força das ondas.

Cartas censuradas durante o Estado Novo e a dependência do nível dos rios para abastecimento mostram como política, comunicação e natureza se entrelaçavam no cotidiano do acampamento petrolífero.

Documentos raros e relatos médicos da expedição

O vídeo também resgata depoimentos de Antônio Carlos Boava, sociólogo e filho de um médico que atuou na operação do CNP na Serra do Divisor. Segundo ele, a missão enfrentava desafios sanitários severos, como malária e isolamento extremo.

O abastecimento dependia integralmente da navegação fluvial, e cartas levavam semanas para chegar. A censura estatal controlava a correspondência, refletindo o contexto autoritário da época.

Esses registros são considerados alguns dos poucos documentos conhecidos sobre a tentativa de exploração, ampliando o valor histórico da redescoberta.

A Caverna do Edson e o encerramento da jornada

No retorno, a equipe visitou a Caverna do Edson, uma das primeiras cavernas catalogadas no Acre. A formação, de origem arenosa e com curso d’água interno, é considerada frágil e pouco segura para visitação frequente.

A presença potencial de animais silvestres, como grandes felinos, reforça a necessidade de cautela. Ainda assim, o local representa outro ponto de interesse geológico em uma região onde cavernas são incomuns.

A passagem pela caverna encerra simbolicamente a expedição, conectando história industrial, biodiversidade e geologia em um único percurso.

Patrimônio histórico em debate

Ao final, o registro levanta a discussão sobre o futuro do Buraco da Sonda. Transformar o local em ponto turístico exigiria planejamento, conservação e debate sobre os limites entre acesso público e preservação ambiental.

A expedição não apenas documenta um episódio pouco conhecido da história brasileira, mas também questiona como o país lida com vestígios industriais na Amazônia e com a memória de projetos que moldaram, ainda que temporariamente, o território.

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Feedbacks
Visualizar todos comentários
Fabio Lucas Carvalho

Jornalista especializado em uma ampla variedade de temas, como carros, tecnologia, política, indústria naval, geopolítica, energia renovável e economia. Atuo desde 2015 com publicações de destaque em grandes portais de notícias. Minha formação em Gestão em Tecnologia da Informação pela Faculdade de Petrolina (Facape) agrega uma perspectiva técnica única às minhas análises e reportagens. Com mais de 10 mil artigos publicados em veículos de renome, busco sempre trazer informações detalhadas e percepções relevantes para o leitor.

Compartilhar em aplicativos
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x