Queda no desmatamento é ofuscada porque as emissões ‘ocultas’ do petróleo do Brasil anulam quase 70% do resultado, aponta IEMA.
As emissões “ocultas” do petróleo do Brasil anulam quase 70% da redução do desmatamento e reacendem o debate sobre a real contribuição do país para o combate às mudanças climáticas.
A conclusão vem de cálculos do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA), apresentados justamente quando o governo chegou à COP30, em Belém, celebrando o terceiro ano consecutivo de queda no desmatamento.
O levantamento mostra que, apesar de o Brasil ter reduzido drasticamente a perda de floresta entre 2022 e 2025, as exportações de petróleo cresceram a ponto de compensar boa parte dessa conquista ambiental.
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O fenômeno ocorre porque o petróleo exportado, embora não seja queimado no Brasil, será utilizado em outros países e, como o planeta funciona como um sistema fechado, o impacto climático recai sobre todos.
Assim, apesar dos avanços internos, parte da contribuição brasileira para a crise climática continua sendo indiretamente ampliada.
Contradição climática: queda no desmatamento x alta no petróleo
Os dados reunidos pelo IEMA indicam que as emissões ‘ocultas‘ do petróleo do Brasil anulam quase 70% da redução do desmatamento, evidenciando um “efeito cobertor curto”.
De acordo com a organização, a queda recorde na destruição da Amazônia gerou uma economia estimada de 371 milhões de toneladas de CO₂ em 2024.
No entanto, o petróleo exportado no mesmo período representa 260 milhões de toneladas — equivalente a 70% desse ganho.
O presidente Lula tem usado a redução do desmatamento como uma vitrine climática, afirmando que o país registra “a menor taxa em 11 anos”. Entre agosto de 2021 e julho de 2025, o desmatamento caiu pela metade, segundo o Inpe.
Entretanto, no mesmo intervalo, o Brasil também ampliou em 138% suas exportações de petróleo.
Especialistas apontam que grande parte desse aumento decorre da ampliação da produção do pré-sal.
O que dizem os ministérios e os ambientalistas
Para o Ministério do Meio Ambiente, as emissões geradas fora do território nacional não podem ser atribuídas ao Brasil, conforme determina o Acordo de Paris. “Não há base para atribuir responsabilidade (…) por emissões em função de suas exportações de petróleo”, afirmou a pasta.
O Ministério de Minas e Energia reforça que o petróleo brasileiro é um dos “menos intensivos em carbono do mundo” e defende a continuidade da exploração para garantir arrecadação e segurança energética.
A pasta calcula que, sem repor reservas, o Brasil voltaria a ser importador até 2040, perdendo até R$ 3,8 trilhões até 2050.
Ambientalistas, porém, alertam que as emissões ‘ocultas’ do petróleo do Brasil anulam quase 70% da redução do desmatamento e minam o discurso brasileiro na arena global.
Para o pesquisador do IEMA, Felipe Barcellos, mesmo que não entrem oficialmente na conta nacional, o país é “co-responsável” pelos impactos globais.
“Se compararmos as emissões da exportação com o que reduzimos de desmatamento, estamos em níveis muito próximos”, afirma.
Como funciona a regra das emissões e por que isso importa
As emissões usadas nos compromissos climáticos são medidas pelas NDCs, que contabilizam apenas o que é emitido dentro das fronteiras de cada país. Isso impede a dupla contagem, mas limita a avaliação real do impacto global.
Hoje, o Brasil busca reduzir entre 59% e 67% suas emissões até 2035, com base nos níveis de 2005.
No entanto, ao defender novas frentes de exploração, como na Foz do Amazonas, o país amplia sua participação na oferta global de combustíveis fósseis o que contraria o espírito das negociações climáticas.
O paradoxo brasileiro no centro da COP30
Durante a COP30, Lula admitiu que o país vive “contradições”, mas defendeu que o mundo precisa construir “mapas do caminho” para abandonar progressivamente os combustíveis fósseis.
A fala foi interpretada como resposta às críticas após a liberação da licença para pesquisas petrolíferas na Foz do Amazonas.
Barcellos ressalta que o petróleo segue sendo crucial para a arrecadação federal, ultrapassando R$ 200 bilhões por ano. Por isso, muitos governos relutam em reduzir a produção, ainda que defendam, em discurso, a transição energética.
Enquanto isso, países vizinhos seguem caminho oposto: a Colômbia anunciou que proibirá a exploração de petróleo na região amazônica.
O futuro da energia e a pressão sobre o Brasil
A Agência Internacional de Energia classifica o Brasil como o oitavo maior produtor de petróleo do mundo.
A meta do governo, porém, é chegar ao quarto lugar. Para os especialistas, essa expansão coloca o país em uma posição desconfortável no debate climático global.
O MME afirma que a atividade gera 600 mil empregos diretos e que esse número chegará a 900 mil até 2030.
Apesar disso, pesquisadores alertam que o país não pode sustentar o discurso de liderança ambiental enquanto impulsiona o mercado fóssil.

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