Compra da Marinha do Brasil sem licitação reacende debate sobre importação de armamentos e riscos à indústria nacional de defesa.
A importação de armamentos realizada pela Marinha do Brasil, por meio da compra de 140 fuzis de fabricação estrangeira, provocou reação imediata da Taurus, maior fabricante de armas leves e táticas da América Latina.
A aquisição ocorreu em novembro, custou R$ 1,3 milhão, foi feita por dispensa de licitação e, segundo a empresa brasileira, ignora a existência de produção nacional equivalente.
O debate envolve soberania industrial, competitividade internacional e os rumos da indústria nacional de defesa, especialmente em um cenário global de tensões comerciais.
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Compra sem disputa reacende debate sobre indústria nacional de defesa
O ponto central da crítica da Taurus está no formato adotado para a aquisição.
A dispensa de licitação permitiu que a Marinha do Brasil comprasse diretamente fuzis da norte-americana Colt’s Manufacturing Company LLC, sem abrir concorrência entre fornecedores.
De acordo com a empresa brasileira, esse tipo de decisão reduz a competitividade da indústria nacional de defesa e enfraquece um setor considerado estratégico para o país.
Além disso, a Taurus argumenta que o Brasil possui capacidade industrial instalada para atender esse tipo de demanda, sem necessidade de recorrer à importação de armamentos.
Fuzil nacional atende à mesma categoria do modelo importado
Em nota enviada à coluna, o presidente da Taurus, Salesio Nuhs, destacou que a empresa fabrica, no Brasil, um fuzil da mesma classe do modelo adquirido pela Marinha.
Segundo ele, o Fuzil T4 Taurus, calibre 5,56 mm, é produzido desde 2017 com tecnologia própria.
“A Taurus fabrica no Brasil, desde 2017, o Fuzil T4 Taurus, com tecnologia própria, adotada por diversas forças nacionais e já exportada para vários países.
Nesse período, aproximadamente 100 mil unidades do modelo foram produzidas no parque industrial da empresa em São Leopoldo (RS), reforçando a capacidade tecnológica e industrial brasileira no segmento de defesa”, afirma Nuhs.
Portanto, a empresa sustenta que a importação de armamentos não se justifica do ponto de vista técnico nem produtivo, já que há oferta nacional consolidada.
Impacto econômico e tarifas internacionais entram no centro da discussão
Outro ponto sensível levantado pela Taurus envolve o atual cenário do comércio internacional.
A decisão da Marinha do Brasil ocorre em um momento no qual os Estados Unidos impõem tarifas elevadas sobre produtos brasileiros do setor de defesa.
“A empresa entende como incoerente e prejudicial à indústria nacional que, no cenário em que os Estados Unidos impõem tarifas de aproximadamente 50% sobre produtos brasileiros exportados por empresas do setor, o Brasil opte pela importação de armamentos norte-americanos”, diz o presidente da Taurus.
Assim, a crítica extrapola a compra em si e passa a envolver reciprocidade comercial, geração de empregos e fortalecimento da indústria nacional de defesa.
Marinha do Brasil justifica decisão com base na Lei de Licitações
Por outro lado, a Marinha do Brasil justificou a dispensa de licitação com base na Lei nº 14.133/2021, conhecida como Lei de Licitações.
O dispositivo legal permite a compra direta de equipamentos militares quando há necessidade de manter a padronização logística das Forças Armadas.
Os defensores desse argumento utilizam a justificativa para assegurar a interoperabilidade entre sistemas já adotados.
Ainda assim, especialistas afirmam que fornecedores nacionais também conseguem atender à padronização, desde que implementem uma integração técnica adequada.
Taurus destaca trajetória e presença internacional
Fundada em 1939, a Taurus construiu uma trajetória sólida no setor de armamentos.
Atualmente, a empresa produz pistolas, revólveres, armas táticas, armas longas e acessórios como capacetes e coletes balísticos.
Além disso, a companhia possui uma fábrica nos Estados Unidos e exporta para mais de 40 países, o que reforça sua atuação global.
Para a empresa, fortalecer a indústria nacional de defesa também significa ampliar a presença do Brasil no mercado internacional de equipamentos militares.
Debate vai além da compra pontual
A discussão levantada pela Taurus aponta para um tema mais amplo: o papel do Estado no fortalecimento da base industrial de defesa.
A empresa avalia que decisões recorrentes de importação de armamentos, especialmente por dispensa de licitação, podem comprometer a soberania tecnológica do país no longo prazo.
O tema, portanto, permanece aberto e deve seguir no centro do debate entre indústria, Forças Armadas e formuladores de políticas públicas nos próximos meses.

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