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Sem plantar árvores: Se deixadas em paz, florestas tropicais gigantescas podem se regenerar sozinhas em escala continental e capturar bilhões de toneladas de carbono, aponta estudo

Publicado em 07/02/2026 às 09:59
Atualizado em 07/02/2026 às 10:00
Florestas, Carbono
Imagem: ilustração artística
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Pesquisa publicada na Nature mostra que deixar áreas tropicais desmatadas em paz pode restaurar biodiversidade, reduzir custos de reflorestamento e ajudar países a combater mudanças climáticas de forma duradoura

As florestas sempre foram descritas como os pulmões do planeta, capazes de absorver carbono da atmosfera e devolver equilíbrio à vida na Terra. Ainda assim, ao longo de décadas, esses ecossistemas essenciais foram sendo reduzidos de forma acelerada, substituídos por áreas agrícolas, cidades em expansão e extensas clareiras sem vegetação. O resultado é um cenário global de preocupação crescente com o clima e com a perda de biodiversidade.

Diante desse quadro, campanhas de plantio de árvores e promessas de bilhões de mudas ganharam destaque como resposta à crise ambiental.

No entanto, um novo estudo publicado na revista Nature aponta que a solução pode ser mais simples e silenciosa do que se imagina.

Segundo os pesquisadores, a própria natureza tem capacidade de se recuperar em grande escala, desde que lhe seja dado espaço e tempo suficientes.

O potencial da regeneração natural

O estudo indica que até 530 milhões de acres de terras tropicais desmatadas, uma área maior que o México, poderiam se regenerar naturalmente se fossem deixadas sem interferência humana.

Essa regeneração teria um impacto expressivo no combate às mudanças climáticas, com potencial para absorver 23,4 gigatoneladas de carbono ao longo de 30 anos.

Além da captura de carbono, os benefícios se estendem a outras dimensões ambientais.

A recuperação natural das florestas pode restaurar a biodiversidade, melhorar a qualidade da água e contribuir para a estabilização dos climas locais, fortalecendo ecossistemas que há muito tempo sofrem pressão constante.

Para Brooke Williams, da Universidade de Tecnologia de Queensland e do Instituto para Intercâmbio de Capacidades em Decisões Ambientais, investir nesse caminho é também uma escolha econômica.

O plantio de árvores em paisagens degradadas pode ser dispendioso. Ao aproveitar as técnicas de regeneração natural, os países podem atingir suas metas de restauração de forma economicamente viável”, afirmou.

Segundo ela, o modelo desenvolvido pelo estudo ajuda a identificar onde essas economias podem ser melhor aproveitadas.

Países-chave na recuperação silenciosa

O levantamento aponta cinco países que concentram mais da metade desse potencial de regeneração: Brasil, Indonésia, China, México e Colômbia.

Essas nações possuem extensas áreas tropicais e condições ecológicas favoráveis, como altos níveis de carbono no solo e proximidade com florestas remanescentes.

Esses fatores tornam essas regiões especialmente propícias para a regeneração em larga escala. A presença de florestas próximas facilita a dispersão de sementes e o retorno gradual de espécies, criando um processo contínuo de recuperação que ocorre quase sem ser percebido.

Florestas observadas do espaço

O estudo é resultado de décadas de pesquisa em sensoriamento remoto e ecologia. Matthew Fagan, especialista em sistemas ambientais da Universidade de Maryland, participou do desenvolvimento do conjunto de dados utilizado.

Ele explica que imagens de satélite foram usadas para identificar milhões de pequenas áreas onde a cobertura arbórea aumentou ao longo do tempo.

Usamos imagens de satélite para identificar milhões de pequenas áreas onde a cobertura arbórea aumentou ao longo do tempo”, disse Fagan.

Segundo ele, áreas plantadas por humanos foram excluídas com o auxílio de aprendizado de máquina, permitindo que o foco permanecesse exclusivamente no crescimento natural.

A pesquisa analisou mudanças na cobertura arbórea entre 2000 e 2012 e verificou se essas florestas continuaram existindo até 2015.

A partir daí, foi criado um modelo preditivo com resolução de apenas 30 metros (98 pés), em que cada pixel representa a probabilidade de recuperação natural da floresta.

Essa precisão oferece aos formuladores de políticas uma ferramenta detalhada para decisões em escala local e nacional.

Custos menores e florestas mais resilientes

Um dos pontos centrais do estudo é a comparação entre o reflorestamento ativo e a regeneração natural. Enquanto a regeneração pode custar cerca de US$ 5 por acre, o plantio de árvores pode ultrapassar US$ 10.000 por acre na mesma área.

Além disso, florestas regeneradas naturalmente tendem a abrigar maior biodiversidade e a se manter estáveis por períodos mais longos.

Isso não significa ausência de ação humana. A regeneração natural assistida pode incluir medidas simples, como a remoção de espécies invasoras, o cercamento para impedir o acesso de animais herbívoros ou a prevenção de incêndios.

Essas intervenções pontuais ajudam a acelerar um processo que já ocorre de forma espontânea.

O estudo mostra ainda que o maior potencial de regeneração está localizado a 300 metros das florestas existentes, onde sementes e polinizadores estão mais disponíveis.

O solo também desempenha papel fundamental, especialmente quando apresenta altos níveis de carbono orgânico, um fator decisivo para o sucesso da vegetação.

Governança local e desafios futuros

Apesar do enorme potencial identificado, os pesquisadores alertam para os riscos. Muitas áreas com alta capacidade de regeneração continuam ameaçadas pela expansão agrícola, pelo desenvolvimento urbano e pelos incêndios.

Sem proteção adequada, florestas jovens podem desaparecer rapidamente.

Os autores defendem o fortalecimento da governança local e o apoio às comunidades por meio de incentivos financeiros, como pagamentos por serviços ecossistêmicos ou créditos de carbono verificados.

No entanto, observam que os mercados de carbono atuais raramente consideram florestas que se regeneram naturalmente, o que limita o apoio a esse modelo.

Fagan reforça que a implementação deve respeitar as realidades locais. Para ele, as pessoas que vivem nessas áreas precisam ter voz ativa sobre onde e como restaurar, já que as condições variam amplamente de um lugar para outro.

No fim, o estudo sugere que permitir que a natureza siga seu curso pode mitigar quase 27% das emissões globais de carbono em áreas desmatadas.

Mais do que uma solução técnica, trata-se de reconhecer que, muitas vezes, a resposta mais eficaz já está presente, aguardando apenas a chance de crescer novamente.

Com informações de Eart.

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Romário Pereira de Carvalho

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