Tensões geopolíticas e tarifas dos EUA elevam a aversão ao risco, enquanto ações de defesa europeias ganham destaque nos mercados.
A escalada das tensões geopolíticas voltou a pressionar os mercados financeiros globais nesta semana, reacendendo a aversão ao risco entre investidores.
O movimento ganhou força após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciar novas tarifas dos EUA contra países europeus, em um contexto de disputas estratégicas envolvendo a Groenlândia.
O episódio ocorre em janeiro, com epicentro político em Washington e reflexos imediatos nas bolsas europeias, no câmbio e nas relações comerciais EUA-UE.
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A ameaça tarifária reacende um cenário já conhecido pelos mercados: maior volatilidade, busca por ativos considerados mais seguros e reprecificação de setores sensíveis ao risco político.
Ainda assim, analistas avaliam que, desta vez, o impacto pode ser mais seletivo, favorecendo segmentos específicos, como as ações de defesa europeias.
Tarifas dos EUA reacendem conflito comercial com a Europa
Segundo o anúncio, os Estados Unidos pretendem impor tarifas adicionais de 10% a partir de 1º de fevereiro sobre produtos de oito países europeus:
Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Holanda, Finlândia e Reino Unido. Caso não haja acordo, as tarifas podem subir para 25% em 1º de junho.
A medida foi apresentada como parte de uma estratégia de pressão diplomática relacionada à Groenlândia.
Em resposta, os oito países divulgaram uma declaração conjunta de apoio ao território, enquanto autoridades da União Europeia sinalizaram retaliação caso as tarifas dos EUA se concretizem.
Esse novo capítulo amplia as incertezas nas relações comerciais EUA-UE, justamente em um momento em que a Europa buscava maior previsibilidade no comércio internacional.
Aversão ao risco retorna, mas impacto pode ser mais contido
Para o economista-chefe do Berenberg, Holger Schmieding, o cenário atual lembra o choque observado no chamado “Dia da Libertação”, em abril de 2025, quando tarifas amplas provocaram forte reação negativa nos mercados globais.
“As esperanças de que a situação tarifária tenha se acalmado para este ano foram frustradas por enquanto – e nos encontramos na mesma situação da primavera passada”, disse Schmieding.
Ainda assim, o analista pondera que a experiência recente pode suavizar as reações.
Na segunda metade do ano passado, investidores passaram a tratar muitas ameaças comerciais como ruído político, especialmente após acordos firmados entre os EUA, o Reino Unido e a União Europeia.
Portanto, embora a aversão ao risco volte ao radar, o impacto tende a ser mais moderado do que em episódios anteriores.
Euro e dólar sentem efeitos das tensões geopolíticas
No mercado cambial, o euro já dá sinais de fragilidade. Schmieding avalia que a moeda europeia pode sofrer pressão adicional com a abertura dos mercados asiáticos.
Na sexta-feira, o euro encerrou em torno de US$ 1,16, o menor patamar desde o fim de novembro.
Já o dólar apresenta um comportamento mais ambíguo.
Bolsas europeias resistem e mantêm desempenho positivo
Apesar do aumento da aversão ao risco, os mercados acionários europeus seguem resilientes.
O índice DAX, da Alemanha, e o FTSE, de Londres, acumulam alta superior a 3% no mês, superando o desempenho do S&P 500, que avançou cerca de 1,3% no mesmo período.
Esse movimento indica que parte dos investidores diferencia o impacto macroeconômico das tensões políticas do desempenho corporativo, especialmente em setores estratégicos para a segurança regional.
Ações de defesa europeias ganham força com cenário geopolítico
Entre os principais beneficiados pelas tensões geopolíticas, destacam-se as ações de defesa europeias.
O setor acumula valorização próxima de 15% no mês, impulsionado pelo aumento das preocupações com segurança internacional e estabilidade territorial.
Além das tarifas dos EUA, a prisão de Nicolás Maduro por autoridades norte-americanas contribuiu para elevar a percepção de risco global, ampliando o interesse por empresas ligadas à defesa e à segurança.
Esse movimento reforça a lógica de que, em momentos de incerteza política, investidores tendem a buscar setores considerados estratégicos e menos sensíveis a ciclos econômicos tradicionais.
Relações comerciais EUA-UE em momento delicado
Para a estrategista geopolítica Tina Fordham, fundadora da Fordham Global Foresight, o cenário indica um retorno explícito do conflito comercial transatlântico.
“A guerra comercial entre os EUA e a UE está de volta”, afirmou.
A avaliação ganha ainda mais peso pelo timing da decisão americana.
As ameaças tarifárias ocorreram justamente quando a União Europeia e o Mercosul avançavam na assinatura de um acordo de livre comércio.
Perspectivas: volatilidade no curto prazo e seletividade nos investimentos
Em síntese, o novo episódio de tensões geopolíticas tende a manter a aversão ao risco elevada no curto prazo.
Por outro lado, as ações de defesa europeias surgem como um dos principais vetores de proteção e oportunidade em meio às incertezas.
Veja mais em: Mercados enfrentam novo choque enquanto Trump promete tarifa à Europa por Groenlândia

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