No Pará, produtores rurais e governo iniciaram a identificação obrigatória de milhões de bovinos em um território com cerca de 25 milhões de cabeças para conter desmatamento, melhorar exportações e impulsionar uma pecuária mais sustentável
No coração da Amazônia brasileira, extensas áreas antes cobertas por uma das maiores biodiversidades do planeta deram lugar a pastagens destinadas à criação de gado. A paisagem mudou ao longo de décadas e passou a refletir o avanço da pecuária sobre a floresta.
O Pará, com 1,2 milhão de quilômetros quadrados, tornou se um dos maiores polos pecuários do país desde os anos 1970, quando políticas públicas incentivaram ocupação e desmatamento para formação de pastos.
Hoje, a atividade é um dos motores econômicos do estado, atrás apenas da mineração. Ao mesmo tempo, tornou se foco central de debates ambientais, comerciais e climáticos.
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Diante da pressão internacional e das perdas de mercado, uma transformação começou a ganhar escala nas fazendas da região.
A expansão da pecuária que mudou a paisagem da Amazônia
O estado possui cerca de 20 milhões de hectares de pastagens ocupadas por pouco menos de 25 milhões de bovinos e búfalos, um rebanho comparável ao da Austrália.
Dados recentes indicam aumento de 54% do desmatamento para formação de pastos nos últimos quatro anos dentro do bioma amazônico.
Estudos apontam que pelo menos metade do gado é criado em áreas desmatadas ilegalmente, fator que compromete exportações e reduz competitividade internacional.
Mercados como Europa, Coreia do Sul e Japão passaram a impor restrições, pressionando produtores e autoridades locais.
Esse cenário acendeu um alerta econômico além do ambiental.
Identificação obrigatória do gado pode virar divisor de águas
Para reverter perdas e controlar a origem da produção, o governo estadual anunciou a implantação da rastreabilidade obrigatória de bovinos e búfalos.
O objetivo é concluir a identificação total do rebanho até o fim da década, antecipando em seis anos a meta nacional prevista para 2032.
A medida permitirá acompanhar toda a cadeia produtiva, desde o nascimento até o abate, dificultando a comercialização de animais ligados ao desmatamento ilegal.
Ambientalistas e lideranças do setor classificam a iniciativa como um possível ponto de virada na luta contra o desmatamento na Amazônia.
Para viabilizar a adesão de pequenos produtores, cerca de dois milhões de brincos eletrônicos estão sendo distribuídos por meio de parcerias institucionais.

Técnicas regenerativas começam a mudar a lógica da produção
Paralelamente à rastreabilidade, produtores adotam práticas regenerativas focadas na recuperação do solo e no aumento da produtividade sem abrir novas áreas.
Entre as estratégias estão plantio de árvores para sombreamento do gado e sistemas agroflorestais que combinam pecuária com culturas comerciais.
A diversificação inclui cacau e açaí, criando novas fontes de renda e reduzindo dependência exclusiva da carne.
Áreas próximas a rios também vêm sendo recuperadas, contribuindo para adaptação ao clima mais quente e seco da região.
O detalhe que mais chama atenção é que produtores vizinhos passaram a replicar os métodos após observar resultados práticos.
Pastoreio de ultra alta densidade melhora solo e reduz pressão por desmate
Outra técnica que ganhou espaço é o pastoreio rotacionado de ultra alta densidade.
O método concentra grande número de animais em uma área por curto período antes da transferência para outro espaço.
Esse manejo estimula a biologia do solo, melhora a fertilidade e aumenta a capacidade de retenção de carbono.
A distribuição uniforme de fezes e urina também reduz necessidade de fertilizantes químicos.
Em algumas propriedades, a troca da variedade de capim adaptada ao clima amazônico eliminou totalmente o uso de adubos industriais.
Alimentação estratégica e redução de metano entram no radar
Grandes fazendas também passaram a investir em suplementação alimentar com subprodutos agrícolas, como milho e sorgo.
Além de acelerar ganho de peso, a estratégia reduz tempo de permanência do animal no pasto.
Testes com rações que diminuem emissão de metano entérico já estão em andamento.
Segundo especialistas, essas práticas reduzem dióxido de carbono e metano por quilo de carne produzido.
A pecuária responde por cerca de dois terços das emissões de metano da agricultura, o que amplia a relevância dessas soluções.
Solo recuperado pode sequestrar carbono em larga escala
Pesquisas indicam que pastagens bem manejadas podem armazenar de duas a quatro toneladas de carbono por hectare por ano.
Em sistemas integrados com árvores, a capacidade de sequestro pode ser ainda maior devido à biomassa arbórea.
O Plano Nacional de Agricultura de Baixo Carbono estima que a recuperação de pastagens e adoção de sistemas integrados pode mitigar cerca de 186 milhões de toneladas de CO2 equivalente até 2030.
A meta envolve restaurar até 40 milhões de hectares no país.
Mesmo com possível aumento do rebanho, a redução do desmatamento tende a compensar parte das emissões totais.
Tecnologia, satélites e dados em tempo real entram na pecuária
Soluções digitais também começam a apoiar a transição sustentável.
Dados de satélite e modelagem de biomassa permitem identificar onde e quando o gado deve pastar.
O consumo de gramíneas mais jovens e nutritivas reduz emissões de metano e melhora eficiência alimentar.
Projetos piloto estão previstos em mais de 100 locais na América Latina e na África.
As informações devem ser disponibilizadas em plataformas abertas, ampliando o acesso dos produtores.
A transformação da pecuária no Pará reúne rastreabilidade, tecnologia e manejo regenerativo em uma tentativa concreta de conciliar produção e conservação. A escala do rebanho, somada à pressão internacional e às novas exigências de mercado, faz dessa mudança um movimento estratégico que pode redefinir o futuro da carne produzida na Amazônia.
Comente sua opinião: você acredita que a pecuária sustentável consegue frear o desmatamento sem reduzir a produção?

Kd à Embrapa, Emater, Senar e outros órgãos pra auxiliar os produtores? Tem que ter uma assistência aos produtores. Diferentemente do que estão fazendo com os produtores de outras regiões que estão sendo expulsos de suas propriedades e tendo seus animais roubados.