Mais de mil pegadas fossilizadas com cerca de 135 milhões de anos estão espalhadas pelas calçadas de Araraquara, formando um dos registros paleontológicos urbanos mais curiosos do Brasil
Araraquara, no interior de São Paulo, guarda mais de mil pegadas de dinossauro espalhadas por calçadas do centro. As marcas fósseis, com cerca de 135 milhões de anos, foram catalogadas por pesquisadores e hoje integram um raro registro paleontológico urbano.
As marcas estão gravadas em blocos de arenito utilizados na pavimentação de calçadas e ruas centrais.
As pedras vieram de uma pedreira local e pertencem à Formação Botucatu, formação geológica conhecida por preservar rastros antigos.
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Segundo levantamento realizado pela Universidade Federal de São Carlos, mais de mil registros fósseis foram identificados nas vias públicas da cidade.
Muitos moradores caminham diariamente sobre essas marcas sem perceber sua origem pré-histórica.
Um deserto antigo que preservou rastros
De acordo com o paleontólogo Marcelo Adorna Fernandes, professor da UFSCar, a região onde hoje fica Araraquara era parte de um grande deserto entre os períodos Jurássico e Cretáceo.
Pequenos oásis existentes naquele ambiente permitiam a passagem de animais pela areia úmida. As pegadas ficaram registradas nesse sedimento e acabaram preservadas após processos geológicos ligados à atividade vulcânica.
Grande parte das marcas encontradas pertence a celurossauros, dinossauros terópodes pequenos. Esses animais tinham aproximadamente o tamanho de uma galinha e deixaram rastros que hoje formam parte do patrimônio científico da ciddae.
A descoberta das marcas fósseis
A identificação das pegadas começou em 1976, quando o padre italiano Giuseppe Leonardi, também paleontólogo, percebeu as marcas durante uma caminhada no Parque Infantil.
A partir desse momento, pesquisadores passaram a examinar as lajes utilizadas nas calçadas da cidade.
Muitas delas apresentavam rastros fossilizados preservados desde o período em que a região ainda era dominada por dunas.
Com o avanço das pesquisas, a presença das pegadas de dinossauro passou a ser reconhecida como um dos registros paleontológicos urbanos mais incomuns do Brasil.
O dinossauro identificado pelos pesquisadores
Décadas depois da descoberta inicial, cientistas da UFSCar e da Universidade Federal do Rio de Janeiro analisaram detalhadamente os rastros encontrados na cidade.
O estudo permitiu identificar uma espécie inédita chamada Farlowichnus rapidus. A descrição científica foi publicada em 2024 na revista Cretaceous Research.
O animal teria cerca de 90 centímetros de altura e possuía características que indicam grande agilidade. Os pesquisadores afirmam que ele estava adaptado para se deslocar rapidamente em ambientes dominados por dunas.
Pegadas de dinossauro viram brinquedo
A repercussão da descoberta não ficou restrita ao meio científico. A empresa Mattel incluiu o Farlowichnus em uma linha de brinquedos ligada à franquia Jurassic World: Teoria do Caos, exibida pela Netflix.
Com isso, um dinossauro identificado a partir das pegadas de dinossauro de Araraquara acabou representado em produtos vendidos em diferentes países.
Antes mesmo dessa divulgação internacional, a cidade já havia aprovado uma lei municipal em 2019. A legislação determina proteção às marcas fósseis presentes nas calçadas.
A norma prevê multa para quem danificar os registros. O objetivo é preservar as pegadas de dinossauro que fazem parte do patrimônio científico e histórico do município.
Qualidade de vida e paisagem urbana
Araraquara também apresenta indicadores sociais elevados. O município possui Índice de Desenvolvimento Humano Municipal de 0,815, classificado como muito alto pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.
Esse resultado coloca a cidade entre os 15 municípios mais bem posicionados do país nesse indicador. Parte do ambiente urbano atual tem relação com decisões tomadas ainda no século XIX.
Durante surtos de febre amarela registrados naquela época, autoridades recomendaram o plantio de eucaliptos para ajudar na drenagem do solo. A iniciativa marcou o início da tradição de arborização pública.
Hoje, árvores como tipuanas, oitis e flamboyants cobrem várias áreas centrais. A Rua Voluntários da Pátria, conhecida como Rua 5, ficou famosa pelo túnel verde formado pelos oitis.
O local é chamado de Boulevard dos Oitis e também abriga parte das pegadas de dinossauro preservadas nas calçadas, transformando a região em um museu paleontológico a céu aberto.
Passeios e atrações na cidade
Entre os pontos visitados está o Museu de Arqueologia e Paleontologia de Araraquara, conhecido como MAPA. O espaço reúne cerca de 36 mil peças relacionadas a diferentes períodos geológicos.
Outro local conhecido é o Parque do Basalto, antiga pedreira transformada em área de lazer com trilhas, paredões de rocha vulcânica e uma pequena cachoeira.
O Museu Ferroviário preserva locomotivas e vagões ligados à história do transporte do café pela região, lembrando a importância econômica das ferrovias no interior paulista.
No distrito de Bueno de Andrada, a cerca de 20 quilômetros do centro, uma antiga estação ferroviária virou ponto gastronômico conhecido pelas coxinhas populares entre visitantes.
Entre ciência, história e paisagem urbana arborizada, Araraquara reúne elementos que conectam passado e presente.
Nas calçadas, as pegadas de dinossauro continuam registrando silenciosamente um capítulo remoto da história da Terra.
Com informações de Tupi.

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