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O cientista climático acidental que revelou o poder oculto dos CFCs, redefiniu o aquecimento global e conquistou reconhecimento internacional

Publicado em 04/02/2026 às 14:35
Atualizado em 04/02/2026 às 14:37
Cientista, Aquecimento global
Imagem: Ilustração
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Trajetória de Veerabhadran Ramanathan evidencia como descobertas científicas transformaram políticas globais e a compreensão sobre gases de efeito estufa

O caminho que levou Veerabhadran Ramanathan a se tornar uma das vozes mais influentes da ciência climática mundial começou de forma improvável, entre sonhos de juventude, curiosidade científica e uma sucessão de descobertas que redefiniram o entendimento sobre o aquecimento global.

Sua trajetória combina persistência, acaso e um olhar atento para conexões que, por décadas, passaram despercebidas.

Sonhos simples e um início distante

Na década de 1960, enquanto crescia no sul da Índia, Ramanathan nutria o que chamava de sonho americano: ter um Chevrolet Impala, um carro potente que conheceu por meio de seu pai, vendedor de pneus.

Ele chegou aos Estados Unidos aos 20 e poucos anos, mas nunca adquiriu o veículo. Seu envolvimento com o estudo do aquecimento global rapidamente superou qualquer possibilidade financeira de bancar um carro beberrão.

Esse contraste entre desejo pessoal e vocação científica marcaria toda a sua carreira. Ainda jovem, percebeu que o conhecimento poderia ter um impacto muito maior do que qualquer conquista material.

Noites silenciosas na NASA

Na década de 1970, já como recém-formado pós-doutorando em ciências planetárias, Ramanathan atuava como pesquisador visitante no Centro de Pesquisa Langley da NASA, em Hampton, Virgínia.

Durante o dia, cumpria suas tarefas oficiais. À noite, porém, dedicava-se a um projeto paralelo, mantido em sigilo até mesmo de seus supervisores.

Foi nesse período que ele identificou algo surpreendente: os clorofluorcarbonos, ou CFCs, amplamente usados em refrigeradores, aparelhos de ar condicionado e latas de spray, apresentavam um forte efeito estufa.

Seus cálculos indicavam que uma única molécula de CFC poderia aquecer tanto quanto até 10.000 moléculas de dióxido de carbono.

Dúvida, repetição e convicção

Durante três meses, Ramanathan refez os cálculos inúmeras vezes, procurando uma explicação alternativa. Nenhuma apareceu. Mesmo assim, hesitou em divulgar o resultado.

Eu era apenas um imigrante pós-doutorando da Índia. Não sabia se devia ou não contar à NASA sobre isso. Simplesmente enviei o artigo”, relembrou.

A revista Science publicou o estudo, e o The New York Times deu destaque à descoberta em 1975.

A reação inicial foi de incredulidade, inclusive do próprio autor, que iniciou a investigação por pura curiosidade, em uma época em que a mudança climática ainda não era vista como urgente.

Ampliando o conceito de efeito estufa

Com o tempo, Ramanathan estabeleceu que gases de efeito estufa diferentes do CO2 são grandes contribuintes para o aquecimento global.

Essa compreensão tornou-se um dos pilares da primeira política bem-sucedida de mitigação das mudanças climáticas.

Na quinta-feira, a Real Academia Sueca de Ciências concedeu a ele o Prêmio Crafoord, considerado por alguns vencedores um possível prenúncio do Nobel.

O reconhecimento veio acompanhado de um valor de 8 milhões de coroas suecas (cerca de US$ 900.000).

Ilona Riipinen, professora da Universidade de Estocolmo e integrante do comitê do prêmio, afirmou que Ramanathan “ampliou nossa visão de como a humanidade está afetando a composição da atmosfera, o clima e a qualidade do ar, e como esses três fatores interagem”.

Um cientista por acidentes felizes

Ramanathan descreve seu percurso como resultado de uma série de “acidentes felizes”. Ele estudou engenharia em Bengaluru, na Índia, e depois trabalhou em uma empresa de refrigeradores, garantindo que os CFCs não vazassem.

Aos 26 anos, mudou-se para os Estados Unidos e iniciou um doutorado na Universidade Estadual de Nova York em Stony Brook.

Uma mudança inesperada no foco de pesquisa de seu orientador levou sua dissertação a tratar do efeito estufa na atmosfera de Vênus.

Mais tarde, na NASA Langley, ele teve contato com estudos de Mario Molina e Frank Rowland, que demonstravam a destruição da camada de ozônio pelos CFCs. A dupla ganhou o Prêmio Nobel em 1995.

Acelerando o relógio do aquecimento

Antes de 1975, Ramanathan não estava preocupado com mudanças climáticas. Porém, à medida que pesquisadores identificaram outros gases traço, como metano e óxido nitroso, ele passou a temer que o aquecimento global se manifestasse mais cedo do que se acreditava.

Um artigo coescrito por ele em 1985 concluiu que esses gases eram potencialmente tão importantes quanto o CO2 para o aquecimento a longo prazo.

Spencer Weart, historiador da ciência, afirmou que a comunidade climática percebeu que “o aquecimento global vai acontecer duas vezes mais rápido do que pensávamos”.

Da teoria à observação direta

Ao longo da carreira, Ramanathan usou satélites, balões, drones e navios para estudar diretamente a atmosfera.

Demonstrou pela primeira vez que as nuvens têm um efeito de resfriamento no planeta e ajudou a explicar como o vapor d’água amplifica o aquecimento causado pelo dióxido de carbono.

Ele também liderou um projeto que mediu uma nuvem de poluição atmosférica com 3 quilômetros (cerca de 2 milhas) de espessura sobre grande parte do subcontinente indiano.

Esse trabalho revelou que a poluição mascarava parte do aquecimento global, criando uma dinâmica que os cientistas ainda tentam compreender.

Cientista revolucionário: Ciência, ética e ação política

Membro do conselho da Pontifícia Academia das Ciências desde 2012, Ramanathan assessorou três papas consecutivos sobre políticas climáticas.

Segundo ele, essa experiência reforçou a dimensão ética da crise, que afetará de forma desproporcional os mais pobres.

Örjan Gustafsson, professor da Universidade de Estocolmo, destacou seu modo de comunicação “discreto, porém eficaz”, capaz de envolver cientistas e tomadores de decisão.

Hoje, aos 81 anos, Ramanathan dirige um Tesla Model Y, mantém um modelo vermelho de um Chevy Impala na lareira e converteu sua casa na Califórnia para energia solar.

Embora tenha desistido de ir a pé ou de ônibus ao trabalho por achar demorado, ele raramente defende ações individuais isoladas.

Prefere incentivar os jovens a elegerem “os políticos certos” e a espalharem a mensagem usando ciência baseada em dados, não em bobagens.

Esses detalhes, aparentemente cotidianos, ajudam a compor o retrato de um cientista que transformou curiosidade em impacto global, conectando descobertas, políticas e consciência social ao longo de décadas.

Com informações de CNN.

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Romário Pereira de Carvalho

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