Ferrovias viram aposta da ANTT para reduzir custo geral da logística do Brasil nos próximos anos e novos leilões serão anunciados
Após um intervalo de cinco anos sem a celebração de novos contratos no setor ferroviário, o governo federal se prepara para retomar ainda neste semestre os leilões de concessão de ferrovias no país. A primeira iniciativa prevista é a concessão da EF-118 (Estrada de Ferro 118), projeto que ligará o Porto de Vitória, no Espírito Santo, ao Porto do Açu, no norte do Rio de Janeiro.
A retomada faz parte da nova Política Nacional de Concessões Ferroviárias, que busca reequilibrar a matriz de transportes brasileira e reduzir os elevados custos logísticos que impactam a economia.
Em entrevista ao EsferaCast nesta quarta-feira, 4 de fevereiro, o diretor-geral da ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres), Guilherme Sampaio, destacou que o Brasil ainda depende excessivamente do transporte rodoviário. Segundo ele, cerca de 65% das cargas no país são escoadas por rodovias, enquanto apenas 15% utilizam o modal ferroviário.
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Em uma cidade da Europa, o maior entroncamento ferroviário do país foi modernizado sem fechar as portas, manteve trens circulando durante anos de obras, passou a atender até 60 mil passageiros por dia e adotou painéis solares que geram cerca de 30% da energia
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O país do “pontual como trem” admite que perdeu o controle: trens rápidos atrasam, param, somem do mapa e fazem viagens de 6 horas virarem 10, enquanto a Deutsche Bahn promete reestruturação em 2026, mas enfrenta infraestrutura do século XIX, falta de pessoal e trechos fechados por meses
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Com investimento de R$ 700 milhões em uma das principais malhas ferroviárias do país, a VLI reforça a infraestrutura, recebe 8 novas locomotivas e amplia o corredor que conecta 7 estados, impulsionando empregos e o transporte de grãos, minério e derivados de petróleo até o Porto de Santos
Esse desequilíbrio, avalia Sampaio, contribui diretamente para o chamado “custo Brasil”, encarecendo o transporte de mercadorias e reduzindo a competitividade das exportações nacionais no mercado internacional.
“O modelo atual tem um desequilíbrio claro do ponto de vista do custo logístico. Isso tira competitividade do país, especialmente na exportação, quando comparado a outras economias que usam mais intensamente as ferrovias”, afirmou o dirigente.
Para ele, a nova política ferroviária representa uma mudança estrutural importante, ao criar um ambiente mais previsível para investidores e destravar projetos que estavam paralisados há anos.
Retomada das concessões de ferrovias no primeiro semestre
Agora, a expectativa do governo é que a agenda de concessões seja retomada já no primeiro semestre, com uma carteira de projetos considerada robusta. Além da EF-118, Sampaio citou a Ferrogrão como outro empreendimento estratégico. A ferrovia é vista como essencial para o escoamento da produção agrícola do Centro-Oeste, conectando a região produtora aos portos do Norte e do Sudeste, reduzindo distâncias, custos e gargalos logísticos.
De acordo com o diretor-geral da ANTT, a ampliação da malha ferroviária traz benefícios que vão além do aspecto econômico. Um dos principais impactos positivos está na área ambiental. “Uma única locomotiva com diversos vagões é capaz de retirar, em média, 300 caminhões das rodovias”, explicou. A substituição parcial do transporte rodoviário pelo ferroviário reduz a emissão de gases poluentes, o consumo de combustíveis fósseis e o desgaste da infraestrutura viária.
Outro ponto destacado por Sampaio é a importância da integração entre os diferentes modais de transporte. Para ele, a eficiência logística depende da conexão entre rodovias, ferrovias e portos, formando um sistema mais fluido e competitivo. “Quando você integra os modais, o sistema funciona melhor como um todo. O ganho não é apenas para o investidor, mas para toda a cadeia produtiva”, afirmou.
Então, o presidente da ANTT também ressaltou o papel das concessões na melhoria da segurança viária. Segundo dados citados por ele, rodovias concedidas à iniciativa privada apresentam redução média de 40% no número de acidentes e de 24% na gravidade das ocorrências. “Ganha o poder público, ganha o investidor e ganha o usuário, que passa a contar com mais segurança e melhor infraestrutura”, disse.
Dirigente aponta novos desafios pela frente
Apesar do otimismo com a retomada dos projetos, Sampaio reconheceu que ainda existem desafios relevantes a serem enfrentados. Um dos principais, segundo ele, é o fortalecimento institucional das agências reguladoras, especialmente no que diz respeito à autonomia orçamentária. “Temos maturidade de governança, mas ainda enfrentamos o desafio da autonomia financeira”, pontuou.
Para o diretor-geral, garantir recursos adequados às agências é fundamental para aumentar a eficiência da fiscalização e da gestão dos contratos de concessão. “Só assim conseguimos entregar mais fiscalização, melhor acompanhamento dos contratos de rodovias e ferrovias e, de forma geral, fazer com que o usuário perceba, na prática, o que está acontecendo”, concluiu.
A retomada das concessões ferroviárias é vista pelo governo como um passo decisivo para modernizar a infraestrutura de transportes do país, reduzir custos logísticos e ampliar a competitividade da economia brasileira nos próximos anos.

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