Núcleo interno da Terra: esfera de ferro do tamanho da Lua gira mais devagar que o planeta e pode estar se deformando a 5.000 km de profundidade
Existe uma esfera de ferro e níquel no centro exato da Terra. Ela tem 1.221 quilômetros de raio — aproximadamente o tamanho da Lua. Está submetida a uma pressão de mais de 3,3 milhões de atmosferas e aquecida a cerca de 5.400 °C, temperatura comparável à da superfície do Sol. Apesar dessas condições extremas, permanece sólida — comprimida demais para fundir, por mais quente que esteja. Nenhum instrumento jamais a tocou. Nenhuma sonda jamais chegou perto. Tudo o que a ciência sabe sobre o núcleo interno da Terra foi deduzido a partir de ondas sísmicas de terremotos que atravessam o planeta e chegam ao outro lado com forma e velocidade ligeiramente diferentes do esperado.
Por décadas, o modelo aceito pelos geofísicos era simples: o núcleo interno seria uma esfera sólida estável, girando um pouco mais rápido que a superfície do planeta. Esse modelo dominou os livros de geologia durante décadas. Desde 2024, porém, esse modelo começou a mudar.
Estudo publicado na Nature encerra debate de 20 anos sobre a rotação do núcleo da Terra
A ideia de que o núcleo interno poderia girar de forma independente da crosta e do manto terrestre não é recente. Em 1996, geofísicos da Universidade de Columbia sugeriram, a partir da análise de ondas sísmicas, que o núcleo interno girava cerca de 1° por ano mais rápido que a superfície da Terra. A hipótese ficou conhecida como super-rotação do núcleo interno.
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Durante as duas décadas seguintes, o tema gerou intenso debate na comunidade científica. Alguns grupos encontravam resultados compatíveis com essa rotação diferencial. Outros sugeriam que o núcleo interno não girava continuamente, mas oscilava ao longo do tempo. Também havia pesquisadores que defendiam que não existia rotação independente alguma.
O impasse começou a ser resolvido em julho de 2024, quando o geofísico John Vidale, professor da Universidade do Sul da Califórnia, e o pesquisador Wei Wang, da Academia Chinesa de Ciências, publicaram na revista Nature um dos estudos mais abrangentes já realizados sobre o interior profundo da Terra.
A equipe compilou 143 pares de terremotos repetidos registrados nas Ilhas Sandwich do Sul, no Atlântico Sul, entre 1991 e 2023.

Esses eventos são particularmente úteis para a ciência porque ocorrem no mesmo local e produzem sinais sísmicos praticamente idênticos. Assim, qualquer diferença observada nas ondas registradas em outro ponto do planeta revela mudanças no interior da Terra por onde essas ondas passaram.
Dados sísmicos mostram que o núcleo interno começou a girar mais devagar que o planeta
A análise revelou algo inesperado. Entre 2003 e 2008, o núcleo interno realmente girou um pouco mais rápido que o resto da Terra — um fenômeno chamado pelos pesquisadores de supersuperrotação, com velocidade entre 0,05° e 0,15° por ano. Por volta de 2010, porém, o comportamento mudou.
Entre 2008 e 2023, os dados indicam que o núcleo interno passou a girar ligeiramente mais devagar que o manto terrestre, fenômeno descrito como subrotação. Em termos práticos, isso significa que o núcleo interno passou a se mover no sentido oposto em relação ao restante do planeta, algo que não era observado havia cerca de 40 anos.
Quando o estudo foi publicado, Vidale comentou: “Ficamos discutindo sobre isso por 20 anos. Acho que isso encerra o debate.”
Ciclo de rotação do núcleo interno da Terra pode durar cerca de 70 anos
Os pesquisadores também identificaram que a mudança na rotação não é aleatória. Os dados apontam para um ciclo de aproximadamente 70 anos, com inversões semelhantes ocorrendo por volta da década de 1970.
De acordo com esse modelo, o núcleo interno deve voltar a acelerar novamente entre 2028 e 2033. Esse comportamento é resultado da competição entre duas forças gigantescas que atuam no interior do planeta.
De um lado está o campo magnético gerado pelo núcleo externo líquido, formado por ferro fundido que circula em correntes de convecção ao redor da esfera sólida central. Esse movimento exerce uma força que tende a acelerar o núcleo interno. Do outro lado está a gravidade do manto terrestre, composta por enormes massas de rocha altamente densas que também exercem influência gravitacional sobre a esfera metálica.
O resultado é uma espécie de pêndulo geofísico extremamente lento, no qual o núcleo interno alterna entre aceleração e desaceleração ao longo de décadas.
Na superfície, os efeitos são mínimos. As variações na duração do dia terrestre causadas por esse movimento são da ordem de milésimos de segundo. Para humanos, isso é imperceptível. Para sistemas como GPS e satélites de navegação, porém, essas variações precisam ser levadas em conta.
Cientistas detectam sinais de deformação física no núcleo interno da Terra
Em fevereiro de 2025, a mesma equipe publicou um segundo estudo, desta vez na revista Nature Geoscience, trazendo um resultado ainda mais surpreendente. Ao analisar cerca de 200 pares de terremotos registrados entre 1991 e 2024, os pesquisadores identificaram diferenças sutis nas ondas sísmicas detectadas em Yellowknife, no Canadá, que não apareciam em estações sísmicas de Fairbanks, no Alasca. Se a única mudança no núcleo fosse rotacional, ambas as estações deveriam registrar padrões semelhantes. Não registraram.
A interpretação mais consistente com os dados foi que a superfície do núcleo interno da Terra pode estar se deformando fisicamente. Segundo Vidale, visualizar esse processo é extremamente difícil.
“É quase ficção científica imaginar o que está acontecendo na superfície do núcleo interno”, explicou o pesquisador. “Talvez a topografia esteja subindo e descendo. Talvez esteja deslizando como deslizamentos de terra.”
Uma das hipóteses é que o núcleo externo líquido esteja empurrando a esfera interna, provocando pequenas deformações na superfície metálica. Essas deformações poderiam ocorrer como saliências, depressões ou deslocamentos locais, alterando levemente a topografia da esfera sólida.
Núcleo da Terra pode estar em estado superiônico, uma fase rara da matéria
Enquanto os estudos sobre rotação e deformação avançavam, outra linha de pesquisa investigava uma questão diferente: por que o núcleo interno se comporta de forma diferente de um metal sólido comum.
Há décadas, dados sísmicos indicam que o núcleo interno é sólido o suficiente para transmitir ondas de cisalhamento, mas ao mesmo tempo macio demais para ser ferro sólido puro. As ondas sísmicas atravessam essa região mais lentamente do que os modelos tradicionais previam.
Em dezembro de 2025, uma equipe liderada pelo professor Youjun Zhang, da Universidade de Sichuan, publicou na revista National Science Review evidências experimentais de que o núcleo interno pode estar em um estado superiônico da matéria. Esse estado é considerado uma fase distinta de sólido, líquido e gás.
Nele, parte dos átomos permanece organizada em uma rede cristalina sólida — no caso do núcleo terrestre, o ferro — enquanto elementos mais leves se movimentam livremente através dessa estrutura, como se fossem um fluido.
No interior da Terra, sob pressões de cerca de 140 gigapascais e temperaturas próximas de 2.600 Kelvin, os átomos de carbono podem se comportar exatamente dessa forma. Segundo os pesquisadores, eles se movem através da estrutura de ferro como “crianças dançando em uma quadrilha”, enquanto a rede metálica permanece rígida.
Para testar a hipótese, os cientistas aceleraram amostras de ligas de ferro e carbono a mais de 7 quilômetros por segundo usando canhões de gás de dois estágios, reproduzindo pressões semelhantes às do interior do planeta. As medições confirmaram uma queda significativa na velocidade das ondas sísmicas, exatamente como os dados geofísicos indicavam.
Movimento do núcleo interno pode influenciar o campo magnético da Terra
A descoberta tem implicações importantes para a compreensão do geodínamo terrestre, o mecanismo responsável por gerar o campo magnético da Terra. Esse campo magnético é produzido pela circulação do ferro líquido no núcleo externo.
O núcleo interno influencia a forma como essas correntes se organizam. Mudanças na rotação ou na estrutura dessa esfera metálica podem alterar gradualmente a configuração do campo magnético ao longo de décadas ou séculos.
Sem esse campo magnético, a atmosfera terrestre ficaria exposta ao vento solar, fluxo constante de partículas emitidas pelo Sol. Ao longo de bilhões de anos, esse processo poderia remover gradualmente a atmosfera do planeta, algo que provavelmente ocorreu em Marte.
O núcleo interno continua crescendo lentamente no centro da Terra
O núcleo interno da Terra não é uma estrutura estática. Ao longo de bilhões de anos, ele tem crescido lentamente à medida que o ferro líquido do núcleo externo se solidifica na superfície da esfera interna. Esse processo ocorre em escala extremamente lenta — milímetros por ano.
Em um futuro extremamente distante, quando todo o núcleo externo líquido eventualmente se solidificar, o campo magnético da Terra deixará de existir. Esse cenário, porém, está a bilhões de anos de distância. Antes disso acontecer, o próprio Sol deverá evoluir para uma fase de gigante vermelha, expandindo-se até engolir os planetas internos do Sistema Solar.
Por enquanto, a esfera metálica do tamanho da Lua que existe a cerca de 5.000 quilômetros abaixo da superfície da Terra continua girando, oscilando e possivelmente se deformando — enquanto os cientistas tentam compreendê-la usando apenas os ecos que ela deixa nas ondas sísmicas que atravessam o planeta.

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