Com grandes barragens no rio Mekong, o Laos investe bilhões em hidrelétricas, exporta energia e redefine sua economia como a “bateria do Sudeste Asiático”.
Em Vientiane, capital do Laos, o governo lançou oficialmente, a partir do início dos anos 2000, uma estratégia nacional para transformar o país em um grande exportador de energia hidrelétrica, aproveitando o potencial do rio Mekong e de seus principais afluentes. A política foi formalizada por meio de planos energéticos do Ministério de Energia e Minas do Laos, com apoio financeiro e técnico do Banco Mundial, do Banco Asiático de Desenvolvimento (ADB) e de consórcios internacionais liderados por empresas da Tailândia, China e Vietnã.
O marco dessa estratégia ocorreu com a entrada em operação da usina Nam Theun 2, em março de 2010, localizada na província de Khammouane, no centro do país. Desde então, o Laos passou a assinar contratos de compra e venda de energia de longo prazo com a Autoridade de Eletricidade da Tailândia (EGAT), além de acordos posteriores com estatais do Vietnã e do Camboja. Segundo dados oficiais do governo laosiano e relatórios do Banco Mundial, mais de 50% da eletricidade gerada no país é destinada à exportação, consolidando o apelido de “bateria do Sudeste Asiático”.
A partir desse ponto, o Laos deixou de ser apenas um país agrícola e montanhoso para se tornar um nó estratégico do sistema elétrico regional, usando barragens colossais como instrumento de desenvolvimento econômico, diplomacia energética e geração de divisas.
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Onde tudo acontece: o rio Mekong e seus principais afluentes
O coração dessa transformação está no rio Mekong, um dos maiores sistemas fluviais da Ásia, que atravessa o Laos de norte a sul. Além do curso principal, afluentes como o Nam Theun, Nam Ngum e Nam Ou concentram dezenas de projetos hidrelétricos.
Segundo o Ministério de Energia e Minas do Laos, o país possui atualmente mais de 70 usinas hidrelétricas em operação, com capacidade instalada superior a 10.000 MW, além de dezenas de projetos em construção ou planejamento. A maior parte dessas usinas foi estrategicamente posicionada próxima às fronteiras com a Tailândia e o Vietnã, reduzindo custos de transmissão e facilitando a exportação.
Nam Theun 2: o projeto que inaugurou a nova era energética
A Usina Hidrelétrica Nam Theun 2, construída entre 2005 e 2010, é considerada o divisor de águas da política energética do Laos. Com 1.070 MW de capacidade instalada, o projeto foi desenvolvido por um consórcio internacional envolvendo a francesa EDF, a tailandesa EGCO e a estatal laosiana Lao Holding State Enterprise.
De acordo com o Banco Mundial, cerca de 95% da energia gerada é exportada para a Tailândia sob contratos de longo prazo, enquanto o restante abastece o mercado interno. O projeto também estabeleceu um modelo inédito no país, vinculando parte da receita da venda de energia a programas de saúde, educação e infraestrutura básica.
Xayaburi: 1.285 MW no eixo principal do Mekong
Outro projeto emblemático é a Usina de Xayaburi, localizada no norte do Laos, no próprio leito do Mekong. Inaugurada comercialmente em 2019, a usina possui 1.285 MW de potência instalada, sendo uma das maiores do país.
Segundo a empresa operadora CK Power e a EGAT, mais de 90% da eletricidade produzida em Xayaburi é exportada para a Tailândia. O projeto envolveu investimentos estimados em US$ 3,5 bilhões e exigiu soluções técnicas complexas para navegação fluvial e mitigação de impactos ambientais, dada a importância do Mekong para pesca e transporte regional.
Exportação de energia como pilar econômico nacional
Dados do Banco Asiático de Desenvolvimento indicam que a exportação de eletricidade já representa uma das principais fontes de receita externa do Laos, ao lado da mineração e da indústria madeireira. Em alguns anos, a venda de energia respondeu por mais de 30% das exportações totais do país. Os principais destinos são:
- Tailândia, maior compradora histórica;
- Vietnã, com contratos em expansão desde 2016;
- Camboja, com interconexões mais recentes.
Esses acordos são firmados com prazos de 20 a 30 anos, garantindo previsibilidade de receita para um país com baixa industrialização interna.
Por que os países vizinhos dependem do Laos
A atratividade da energia laosiana se explica por três fatores técnicos e econômicos claros, segundo relatórios da Agência Internacional de Energia (IEA):
- Custo competitivo da hidreletricidade em comparação a térmicas a carvão ou gás
- Redução de emissões, alinhada às metas climáticas regionais
- Segurança energética, com fornecimento estável de longo prazo
Para países como a Tailândia, importar energia do Laos permite manter crescimento industrial sem ampliar drasticamente a geração fóssil interna.
Benefícios internos e riscos do modelo
Internamente, as barragens impulsionaram a arrecadação estatal, financiaram estradas, linhas de transmissão e projetos urbanos. No entanto, relatórios do Banco Mundial e de organizações ambientais alertam para riscos relevantes, como:
- Endividamento elevado associado a megaprojetos
- Impactos sociais em comunidades ribeirinhas
- Alterações no regime de sedimentos e pesca do Mekong
Ainda assim, o governo laosiano mantém a estratégia como eixo central de desenvolvimento nacional.
Um país pequeno com influência energética regional
Ao transformar rios em eletricidade exportável, o Laos conseguiu algo raro: converter geografia em poder econômico regional. As barragens não são apenas obras de engenharia, mas instrumentos de política externa, financiamento estatal e integração com as maiores economias do Sudeste Asiático.
Hoje, o título de “bateria do Sudeste Asiático” não é retórico. Ele descreve, com precisão técnica e econômica, o papel que o Laos passou a ocupar no mapa energético da Ásia.

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