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Com rios represados, turbinas de mais de 1.200 MW e contratos de exportação bilionários, o Laos transforma barragens colossais na “bateria do Sudeste Asiático” e passa a vender energia para Tailândia, Vietnã e Camboja

Escrito por Débora Araújo
Publicado em 07/02/2026 às 15:16
Atualizado em 07/02/2026 às 15:18
Com rios represados, turbinas de mais de 1.200 MW e contratos de exportação bilionários, o Laos transforma barragens colossais na “bateria do Sudeste Asiático” e passa a vender energia para Tailândia, Vietnã e Camboja
Com rios represados, turbinas de mais de 1.200 MW e contratos de exportação bilionários, o Laos transforma barragens colossais na “bateria do Sudeste Asiático” e passa a vender energia para Tailândia, Vietnã e Camboja
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Com grandes barragens no rio Mekong, o Laos investe bilhões em hidrelétricas, exporta energia e redefine sua economia como a “bateria do Sudeste Asiático”.

Em Vientiane, capital do Laos, o governo lançou oficialmente, a partir do início dos anos 2000, uma estratégia nacional para transformar o país em um grande exportador de energia hidrelétrica, aproveitando o potencial do rio Mekong e de seus principais afluentes. A política foi formalizada por meio de planos energéticos do Ministério de Energia e Minas do Laos, com apoio financeiro e técnico do Banco Mundial, do Banco Asiático de Desenvolvimento (ADB) e de consórcios internacionais liderados por empresas da Tailândia, China e Vietnã.

O marco dessa estratégia ocorreu com a entrada em operação da usina Nam Theun 2, em março de 2010, localizada na província de Khammouane, no centro do país. Desde então, o Laos passou a assinar contratos de compra e venda de energia de longo prazo com a Autoridade de Eletricidade da Tailândia (EGAT), além de acordos posteriores com estatais do Vietnã e do Camboja. Segundo dados oficiais do governo laosiano e relatórios do Banco Mundial, mais de 50% da eletricidade gerada no país é destinada à exportação, consolidando o apelido de “bateria do Sudeste Asiático”.

A partir desse ponto, o Laos deixou de ser apenas um país agrícola e montanhoso para se tornar um nó estratégico do sistema elétrico regional, usando barragens colossais como instrumento de desenvolvimento econômico, diplomacia energética e geração de divisas.

Onde tudo acontece: o rio Mekong e seus principais afluentes

O coração dessa transformação está no rio Mekong, um dos maiores sistemas fluviais da Ásia, que atravessa o Laos de norte a sul. Além do curso principal, afluentes como o Nam Theun, Nam Ngum e Nam Ou concentram dezenas de projetos hidrelétricos.

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Segundo o Ministério de Energia e Minas do Laos, o país possui atualmente mais de 70 usinas hidrelétricas em operação, com capacidade instalada superior a 10.000 MW, além de dezenas de projetos em construção ou planejamento. A maior parte dessas usinas foi estrategicamente posicionada próxima às fronteiras com a Tailândia e o Vietnã, reduzindo custos de transmissão e facilitando a exportação.

Nam Theun 2: o projeto que inaugurou a nova era energética

A Usina Hidrelétrica Nam Theun 2, construída entre 2005 e 2010, é considerada o divisor de águas da política energética do Laos. Com 1.070 MW de capacidade instalada, o projeto foi desenvolvido por um consórcio internacional envolvendo a francesa EDF, a tailandesa EGCO e a estatal laosiana Lao Holding State Enterprise.

De acordo com o Banco Mundial, cerca de 95% da energia gerada é exportada para a Tailândia sob contratos de longo prazo, enquanto o restante abastece o mercado interno. O projeto também estabeleceu um modelo inédito no país, vinculando parte da receita da venda de energia a programas de saúde, educação e infraestrutura básica.

Xayaburi: 1.285 MW no eixo principal do Mekong

Outro projeto emblemático é a Usina de Xayaburi, localizada no norte do Laos, no próprio leito do Mekong. Inaugurada comercialmente em 2019, a usina possui 1.285 MW de potência instalada, sendo uma das maiores do país.

Segundo a empresa operadora CK Power e a EGAT, mais de 90% da eletricidade produzida em Xayaburi é exportada para a Tailândia. O projeto envolveu investimentos estimados em US$ 3,5 bilhões e exigiu soluções técnicas complexas para navegação fluvial e mitigação de impactos ambientais, dada a importância do Mekong para pesca e transporte regional.

Exportação de energia como pilar econômico nacional

Dados do Banco Asiático de Desenvolvimento indicam que a exportação de eletricidade já representa uma das principais fontes de receita externa do Laos, ao lado da mineração e da indústria madeireira. Em alguns anos, a venda de energia respondeu por mais de 30% das exportações totais do país. Os principais destinos são:

  • Tailândia, maior compradora histórica;
  • Vietnã, com contratos em expansão desde 2016;
  • Camboja, com interconexões mais recentes.

Esses acordos são firmados com prazos de 20 a 30 anos, garantindo previsibilidade de receita para um país com baixa industrialização interna.

Por que os países vizinhos dependem do Laos

A atratividade da energia laosiana se explica por três fatores técnicos e econômicos claros, segundo relatórios da Agência Internacional de Energia (IEA):

  • Custo competitivo da hidreletricidade em comparação a térmicas a carvão ou gás
  • Redução de emissões, alinhada às metas climáticas regionais
  • Segurança energética, com fornecimento estável de longo prazo

Para países como a Tailândia, importar energia do Laos permite manter crescimento industrial sem ampliar drasticamente a geração fóssil interna.

Benefícios internos e riscos do modelo

Internamente, as barragens impulsionaram a arrecadação estatal, financiaram estradas, linhas de transmissão e projetos urbanos. No entanto, relatórios do Banco Mundial e de organizações ambientais alertam para riscos relevantes, como:

  • Endividamento elevado associado a megaprojetos
  • Impactos sociais em comunidades ribeirinhas
  • Alterações no regime de sedimentos e pesca do Mekong

Ainda assim, o governo laosiano mantém a estratégia como eixo central de desenvolvimento nacional.

Um país pequeno com influência energética regional

Ao transformar rios em eletricidade exportável, o Laos conseguiu algo raro: converter geografia em poder econômico regional. As barragens não são apenas obras de engenharia, mas instrumentos de política externa, financiamento estatal e integração com as maiores economias do Sudeste Asiático.

Hoje, o título de “bateria do Sudeste Asiático” não é retórico. Ele descreve, com precisão técnica e econômica, o papel que o Laos passou a ocupar no mapa energético da Ásia.

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Débora Araújo

Débora Araújo é redatora no Click Petróleo e Gás, com mais de dois anos de experiência em produção de conteúdo e mais de mil matérias publicadas sobre tecnologia, mercado de trabalho, geopolítica, indústria, construção, curiosidades e outros temas. Seu foco é produzir conteúdos acessíveis, bem apurados e de interesse coletivo. Sugestões de pauta, correções ou mensagens podem ser enviadas para contato.deboraaraujo.news@gmail.com

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