Falta de licença do Ibama adia a estreia da ferrovia Transnordestina. Obra bilionária no Nordeste segue sem data definida.
A tão aguardada inauguração da ferrovia Transnordestina, que ligará o interior do Nordeste ao litoral do Ceará e de Pernambuco, foi adiada na véspera do evento. O motivo, segundo a Transnordestina Logística, responsável pelo projeto, é a ausência da licença de operação do Ibama, documento essencial para que o trem de cargas pudesse realizar sua primeira viagem nesta sexta-feira (24/10/2025).
A viagem inaugural sairia de Bela Vista do Piauí em direção a Iguatu, no Ceará, marcando um novo capítulo na história da infraestrutura ferroviária brasileira.
No entanto, o Ibama confirmou que pendências técnicas e documentais impediram a liberação da licença.
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Pendências ambientais atrasam o início da operação
O órgão ambiental informou que ainda há falhas no processo de licenciamento, incluindo a ausência de um programa de gerenciamento de riscos e a falta de uma manifestação do Incra sobre a passagem da ferrovia por terras quilombolas.
Essas exigências precisam ser resolvidas antes da emissão da licença definitiva.
De acordo com o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, o evento estava confirmado até quarta-feira (22/10/2025), quando o governo do Piauí anunciou a viagem inaugural.
A suspensão, anunciada no dia seguinte, pegou de surpresa gestores e autoridades que acompanhavam o cronograma.
Um projeto que se arrasta há quase duas décadas
A Transnordestina é uma das obras mais emblemáticas do setor de transporte no país. Lançada em 2006, durante o primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a ferrovia foi planejada para ter 1,7 mil quilômetros de extensão, ligando Eliseu Martins (PI) aos portos de Pecém (CE) e Suape (PE).
Inicialmente, o investimento era estimado em R$ 4,5 bilhões, com conclusão prevista para 2010. Hoje, o cenário é bem diferente: o custo saltou para R$ 15 bilhões, o traçado foi reduzido para 1,2 mil quilômetros e a nova previsão de entrega é 2029.

Licitações, paralisações e aumento de custos
Desde o início, a ferrovia enfrentou uma série de entraves burocráticos, contratuais e financeiros.
O Tribunal de Contas da União (TCU) chegou a suspender o repasse de verbas federais em duas ocasiões, o que provocou longos períodos de paralisação — incluindo um intervalo de cinco anos de obras praticamente paradas.
Problemas fundiários e mudanças no traçado também impactaram o projeto. A ferrovia, que inicialmente passaria por 81 municípios, teve parte de seu percurso abandonado.
Em dezembro de 2022, a empresa responsável devolveu a concessão do trecho entre Salgueiro e Suape, deixando essa parte sem continuidade.
O TCU analisa, agora, a possibilidade de incluir o trecho no novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).
Especialistas apontam falhas na gestão do projeto
Para Paulo Resende, coordenador do Núcleo de Logística da Fundação Dom Cabral, a falta de continuidade e planejamento consistente explica boa parte dos problemas enfrentados.
“A dinâmica das cargas, a dinâmica da logística muda ao longo dos anos. Então, quando você tem grandes interrupções, não há continuidade nem fluidez no desenvolvimento do projeto. Descobrimos coisas que poderiam ter sido resolvidas há muito tempo e agora provocam interrupção”, afirma o especialista.
Expectativas para o futuro da ferrovia
Mesmo com os atrasos e os custos crescentes, o governo federal mantém a Transnordestina como um dos principais eixos de integração logística do Nordeste.
Quando concluída, a ferrovia deverá impulsionar o escoamento de grãos e minérios para os portos da região, reduzindo custos de transporte e fortalecendo a competitividade da economia local.
No entanto, enquanto as pendências ambientais e técnicas persistirem, a inauguração seguirá sem data confirmada — prolongando ainda mais uma história que começou há quase vinte anos e que, até agora, segue sem trilhos plenamente operacionais.

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