Guerra no Oriente Médio pressiona importação de fertilizante, transporte e diesel, podendo elevar preço dos alimentos no Brasil.
A guerra no Oriente Médio envolvendo o Irã, os Estados Unidos e aliados pode provocar impacto direto no bolso do consumidor no Brasil nos próximos meses. O conflito, intensificado recentemente na região, afeta rotas comerciais estratégicas, eleva custos de importação de fertilizante, aumenta o preço do diesel e encarece o transporte marítimo global.
Economistas e analistas do agronegócio alertam que essas mudanças podem pressionar os custos de produção agrícola e, consequentemente, elevar os preços dos alimentos no país.
Esse efeito ocorre porque o Brasil depende fortemente da importação de fertilizantes e combustíveis. Além disso, parte relevante dessas commodities passa por rotas comerciais estratégicas do Oriente Médio, que atualmente enfrentam instabilidade geopolítica.
-
Rússia avalia suspender gás para a Europa após disparada no preço da energia
-
Como uma guerra a milhares de quilômetros do Brasil começou a bagunçar rotas marítimas globais, encarecer contêineres e colocar em risco até 40% das exportações brasileiras de carne bovina
-
Guerra Irã EUA eleva Preço do petróleo e pressiona Mercados financeiros globais
-
Frente Parlamentar Agropecuária pressiona por salvaguardas no Acordo Mercosul
Embora o impacto para os produtores já esteja sendo sentido, especialistas afirmam que o consumidor pode perceber os reflexos principalmente nos próximos meses.
Veja também: Estreito de Ormuz: centenas de navios e petroleiros ficam presos após ataques no Oriente Médio
Veja também: Preço do petróleo dispara com crise no Oriente Médio e pressiona bolsa de valores
Guerra no Oriente Médio já pressiona preços de fertilizante no Brasil
Um dos primeiros efeitos da guerra no Oriente Médio foi a rápida alta nos preços internacionais de fertilizante, insumo essencial para a agricultura brasileira.
O Brasil é altamente dependente da importação desses produtos. Parte significativa da matéria-prima utilizada na produção agrícola vem justamente de países do Oriente Médio.
Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), a região é a quarta maior fornecedora de fertilizantes químicos ao país.
Mesmo não sendo o principal parceiro comercial do Brasil, o Oriente Médio exerce forte influência no mercado global do insumo.
Isso ocorre porque a região responde por cerca de:
- 40% das exportações globais de ureia
- 28% das exportações mundiais de amônia
De acordo com o analista Tomás Rigoletto Pernías, da StoneX Brasil, o impacto nos preços foi imediato.
“O impacto nos preços foi instantâneo e severo, com altas de cerca de 10% a 12% em apenas um dia, em mercados como o do Brasil e do Oriente Médio”.
Além disso, vendedores de fertilizantes suspenderam temporariamente negociações para entender melhor o comportamento do mercado.
“Com a eclosão do conflito, os vendedores de fertilizantes do Médio Oriente e de outras regiões suspenderam as suas vendas para tentarem entender qual é o real valor do produto que eles têm na mão”.
Transporte internacional mais caro após guerra no Oriente Médio
Outro fator crítico é o transporte marítimo, que também foi afetado pela guerra no Oriente Médio.
O Irã fechou o Estreito de Ormuz, uma das rotas comerciais mais importantes do planeta. Por essa passagem circula grande parte do petróleo mundial e diversos produtos industriais.
Sem essa rota, navios precisam alterar trajetos, o que aumenta significativamente os custos logísticos.
Isso significa:
- fretes marítimos mais caros
- seguros de carga mais altos
- aumento no custo de contêineres
- atrasos nas cadeias de suprimentos
Segundo especialistas, esse efeito impacta o comércio global e não apenas as mercadorias ligadas ao Oriente Médio.
O professor Felippe Serigati, da FGV Agro, explica que o mercado internacional é totalmente interligado.
Mesmo que um fornecedor deixe de entregar produtos, a demanda permanece, elevando os preços globais.
Diesel mais caro pode aumentar custo do transporte de alimentos
Além da alta do fertilizante, a guerra no Oriente Médio também pressiona os preços do petróleo.
A região concentra alguns dos maiores produtores de petróleo do mundo, como Arábia Saudita, Irã e Emirados Árabes Unidos.
Com a instabilidade, o barril do Brent — referência internacional — chegou a subir cerca de 4%, aproximando-se de US$ 81.
Esse aumento pode impactar diretamente o transporte no Brasil, já que o diesel é fundamental para:
- operação de máquinas agrícolas
- transporte da safra
- distribuição de alimentos
Com diesel mais caro, o custo do frete aumenta e acaba sendo repassado para o consumidor final.
A estrategista de inflação Andréa Angelo destaca que esse efeito é amplo.
“Quando o preço da gasolina sobe, provavelmente o preço dos outros combustíveis vão junto […] e você tem todo um repasse indireto desses custos”.
Impactos da guerra no Oriente Médio podem atingir exportações do Brasil
O conflito também pode afetar as exportações brasileiras para países do Oriente Médio.
Na região, o Brasil vende principalmente:
- frango
- carne bovina
- açúcar
- milho
Segundo o presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Ricardo Santin, o setor já enfrenta dificuldades logísticas.
“Tem muita carne que está na água. Somente os Emirados Árabes compraram, em janeiro, 44 mil toneladas. A Arábia [Saudita] comprou 33 mil. Então, tem contêineres na água e eles são redirecionados”.
Além disso, empresas de transporte marítimo já criaram uma “taxa de guerra” para compensar riscos logísticos.
“As novas rotas são mais demoradas e caras. Os armadores já implementaram uma ‘taxa de guerra'”.
Quando os efeitos da guerra no Oriente Médio podem chegar ao consumidor
Embora os custos já estejam subindo, especialistas afirmam que o impacto total ainda depende da duração da guerra no Oriente Médio.
O pesquisador Leandro Gilio, do Insper Agro Global, afirma que o efeito no campo é imediato, mas demora mais para chegar ao consumidor.
“A questão é o quanto o conflito vai impactar na produção e o quanto essa guerra vai perdurar. Provavelmente não vai ser uma coisa rápida de ser resolvida”.
Além disso, outros fatores podem ajudar a reduzir a pressão sobre os preços.
Entre eles estão:
- queda do dólar
- clima favorável para produção agrícola
- estoques de combustíveis
Ainda assim, economistas alertam que a combinação de importação de fertilizante, aumento no transporte e alta nos combustíveis pode pressionar a inflação de alimentos no Brasil caso o conflito se prolongue.

Seja o primeiro a reagir!