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Desmatamento pode estar abrindo caminho para fungo mortal que devasta sapos e rãs, e cientistas brasileiros investigam como a perda da floresta enfraquece a “proteção natural” da pele dos anfíbios contra a quitridiomicose, uma das piores epidemias da vida selvagem mundial

Publicado em 27/01/2026 às 23:06
Desmatamento enfraquece microbioma da pele de anfíbios, facilita fungo Bd e amplia quitridiomicose, ameaça silenciosa à vida selvagem.
Desmatamento enfraquece microbioma da pele de anfíbios, facilita fungo Bd e amplia quitridiomicose, ameaça silenciosa à vida selvagem.
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Desmatamento altera microbioma da pele, reduz diversidade de bactérias protetoras e pode facilitar infecção pelo fungo da quitridiomicose, uma das epidemias mais graves já registradas entre vertebrados silvestres em diferentes continentes.

O desmatamento pode estar interferindo diretamente na capacidade de defesa natural de sapos e rãs contra um dos fungos mais letais já registrados na vida selvagem. Pesquisadores brasileiros investigam como a perda da floresta modifica o microbioma da pele dos anfíbios e pode deixá-los mais vulneráveis à quitridiomicose.

A hipótese é que o desmatamento reduza a diversidade de bactérias protetoras que vivem na pele desses animais, enfraquecendo uma barreira biológica essencial contra o fungo Batrachochytrium dendrobatidis, agente da doença que já provocou colapsos populacionais em várias regiões do planeta.

O que muda na pele dos anfíbios quando a floresta desaparece

A pele dos anfíbios não é apenas uma cobertura externa. Ela funciona como um ecossistema vivo, repleto de microrganismos que competem com patógenos e ajudam a impedir infecções.

Essa comunidade microscópica é chamada de microbioma cutâneo.

Em áreas de floresta preservada, a composição desse microbioma tende a ser mais diversa e equilibrada entre indivíduos da mesma espécie.

Já em áreas afetadas pelo desmatamento, pesquisadores observaram uma redução na diversidade bacteriana e maior variação entre os animais, sinal de desequilíbrio ecológico na própria pele.

Esse empobrecimento pode comprometer a chamada proteção natural da pele, que dificulta a instalação e a multiplicação de microrganismos invasores, incluindo o fungo responsável pela quitridiomicose.

A espécie escolhida para entender o problema

Para investigar essa relação entre desmatamento, microbioma e doença, os cientistas precisavam de uma espécie que vivesse tanto em áreas de floresta contínua quanto em regiões degradadas.

A escolhida foi a pererequinha do brejo Dendropsophus minutus.

Essa espécie apresenta tolerância moderada ao fungo, o que permite comparar indivíduos mais ou menos resistentes à infecção e relacionar essa diferença com a diversidade de bactérias presentes na pele.

Foram estudadas populações na Mata Atlântica paulista e na região de Mata de Araucárias no sul do país, em áreas preservadas e também em ambientes alterados.

Como os pesquisadores analisaram o microbioma

Cerca de 600 indivíduos foram amostrados em campo, e 187 passaram por análises moleculares detalhadas. A coleta do material da pele foi feita com técnicas estéreis, usando cotonetes para retirar microrganismos da superfície cutânea.

O material passou por sequenciamento genético, gerando uma base de dados com centenas de tipos de bactérias por animal.

A partir desses dados, foram calculados índices de diversidade, abundância e relação evolutiva entre as bactérias encontradas.

Esse conjunto de informações permitiu comparar como o microbioma varia entre anfíbios de áreas preservadas e de regiões afetadas pelo desmatamento.

Floresta preservada significa microbioma mais diverso

Os resultados indicaram que indivíduos de áreas de floresta íntegra apresentavam microbiomas mais diversos e mais semelhantes entre si.

Já em áreas abertas ou degradadas, o microbioma era menos diverso e mais irregular de um animal para outro.

Esse padrão sugere que o desmatamento pode desorganizar a comunidade bacteriana da pele, reduzindo sua eficiência como barreira contra patógenos.

Embora ainda não seja possível afirmar de forma definitiva que essa perda de diversidade aumenta diretamente o risco de infecção, os dados apontam para um enfraquecimento potencial da resistência natural dos anfíbios.

O que acontece quando o fungo se instala

Quando o fungo da quitridiomicose infecta um anfíbio, ele se fixa na pele e passa a se multiplicar.

No início da infecção, a quantidade de bactérias pode até aumentar, possivelmente porque o sistema imune do animal fica comprometido e abre espaço para microrganismos oportunistas.

Com o avanço da doença, a pele engrossa, a troca de gases é prejudicada e o equilíbrio do microbioma entra em colapso. Quando a diversidade bacteriana despenca, o quadro costuma ser grave, e muitos animais não resistem.

A pele é vital para anfíbios adultos porque participa da respiração. O fungo ataca a queratina, altera a permeabilidade e interfere nas trocas gasosas, levando a distúrbios fisiológicos que podem resultar em morte.

Uma epidemia que já devastou continentes

A quitridiomicose é considerada uma das piores epidemias já registradas entre vertebrados. O fungo se espalha por esporos na água de lagoas e rios, infectando diferentes espécies.

A doença já foi associada a desaparecimentos locais e declínios populacionais severos nas Américas, na Austrália, na Europa, na Nova Zelândia e em partes da África.

Em algumas regiões, áreas que antes eram ricas em anfíbios ficaram praticamente silenciosas em poucos anos.

Na Mata Atlântica brasileira, o fungo é endêmico. Apesar de os impactos não serem tão extremos quanto em algumas áreas da América Central, há registros de declínios históricos importantes, especialmente no final do século passado.

Por que o desmatamento pode agravar o cenário

O desmatamento não afeta apenas a quantidade de árvores. Ele altera temperatura, umidade, disponibilidade de abrigo e qualidade da água.

Essas mudanças ambientais podem influenciar diretamente o microbioma dos anfíbios e a dinâmica do fungo no ambiente.

Ao reduzir a diversidade bacteriana da pele, o desmatamento pode retirar uma camada de defesa natural, facilitando a instalação do patógeno.

Ao mesmo tempo, ambientes alterados podem criar condições favoráveis para a persistência e a disseminação do fungo na água.

Esse conjunto de fatores pode transformar áreas degradadas em locais de maior risco para surtos da doença.

Próximos passos da pesquisa

Os pesquisadores agora buscam identificar quais bactérias da pele dos anfíbios têm potencial para inibir o crescimento do fungo. A ideia é descobrir se microrganismos específicos funcionam como protetores naturais.

Se essas bactérias forem identificadas, no futuro pode ser possível desenvolver probióticos para reforçar o microbioma de populações ameaçadas, ajudando a reduzir a vulnerabilidade à quitridiomicose em regiões onde o desmatamento já comprometeu o equilíbrio ecológico.

Você já imaginou que a perda da floresta poderia enfraquecer até a defesa invisível da pele de sapos e rãs?

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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