Mesmo com discurso ambiental, a COP30 funciona com geradores a diesel, manejo precário de resíduos e emissões constantes no pavilhão Blue Zone, segundo inspeções realizadas no local
A COP30, que ocorre em Belém (PA) em novembro de 2025, deveria simbolizar o compromisso global com a redução das emissões de gases de efeito estufa. No entanto, a realidade nos bastidores revela um cenário contraditório. Em meio a discursos sobre sustentabilidade, o evento opera com centenas de geradores a diesel, emissão de carbono e descarte irregular de resíduos.
Segundo dados da organização, 80.000 quilovolt-ampères de potência elétrica são necessários para manter a conferência em funcionamento. Para isso, cerca de 160 geradores a diesel foram instalados no entorno da Blue Zone — área destinada às delegações oficiais e chefes de Estado. Mais de 30 praças técnicas concentram até 20 máquinas cada, operando continuamente para sustentar os sistemas de refrigeração e iluminação.
Consumo energético e emissões
Funcionários relataram que muitos geradores permanecem ligados o tempo todo, inclusive para alimentar aparelhos de ar-condicionado em potência máxima. O consumo exato de combustível e a emissão de carbono, contudo, não foram divulgados pela organização.
Enquanto isso, o cheiro de diesel tornou-se constante na área destinada aos jornalistas, especialmente após as chuvas típicas do fim da tarde em Belém. O contraste é simbólico: o evento que discute o futuro do planeta depende de energia fóssil para garantir o conforto térmico de seus participantes.
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Inviabilidade técnica e substituição de combustível
O edital da COP30 previa o uso de combustível 100% renovável (B100), mas, segundo a Secretaria Especial da COP (Secop), vinculada à Casa Civil, o plano não foi viável. Motivos como logística complexa, compatibilidade dos equipamentos e segurança operacional foram citados como impedimentos.
Dessa forma, a alternativa adotada foi o Diesel S10, vendido nos postos de gasolina, mas com versão modificada pela Petrobras — ainda indisponível ao público. A composição inclui 75% de diesel mineral, 15% de biodiesel e 10% de matéria-prima renovável processada em refinarias.
Segundo a Secop, a mistura atende aos critérios da Agência Nacional do Petróleo (ANP) e às metas de sustentabilidade do evento, garantindo menores teores de enxofre e redução parcial de emissões. Mesmo assim, especialistas consideram o uso de combustíveis fósseis um retrocesso ambiental em plena conferência climática.
Críticas e comparações com megaeventos anteriores
Ambientalistas ouvidos por veículos nacionais classificaram a situação como “esdrúxula” e “vergonhosa”, especialmente ao lembrar que o Brasil forneceu 90% de energia limpa durante a Olimpíada do Rio (2016) e a Copa do Mundo (2014), conforme dados do Operador Nacional do Sistema (ONS).
Desde 2011, o Pará conta com a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, uma das maiores do mundo, em Altamira. No entanto, técnicos envolvidos na COP30 afirmaram que a criação de uma linha exclusiva para a área do evento seria economicamente inviável, pois exigiria a construção de novas conexões de integração ao sistema nacional.
Gestão de resíduos e drenagem precária
O acúmulo de lixo também preocupa. Inspeções revelaram montes de madeira, entulho e separação manual de recicláveis feita sem equipamentos de proteção individual.
Para conter alagamentos, foi construída uma calha de drenagem. Mesmo assim, a tempestade do dia 11 de novembro provocou bloqueios nas saídas de água. Garrafas PET, pedaços de madeira e embalagens plásticas impediram a drenagem adequada e agravaram os alagamentos na área.
Um paradoxo em meio à floresta
Cercada por uma tela metálica, a Blue Zone fica ao lado de um trecho preservado da Amazônia. O contraste é evidente. Enquanto o mundo discute descarbonização, a conferência funciona movida a diesel e cercada por lixo e fumaça.
O cenário reforça o paradoxo entre discurso e prática, transformando um símbolo de sustentabilidade em alerta sobre contradições estruturais em grandes eventos ambientais.

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