Criado por EUA e Alemanha na década de 1960, o MBT-70 combinava suspensão hidráulica, carregador automático e canhão lançador de mísseis, mas acabou cancelado após custos explodirem.
No auge da Guerra Fria, quando Estados Unidos e União Soviética competiam em praticamente todas as áreas tecnológicas, surgiu um dos projetos de blindados mais ambiciosos da história militar: o MBT-70 (Main Battle Tank 70). Desenvolvido em parceria entre Estados Unidos e Alemanha Ocidental, o tanque foi concebido para representar um salto tecnológico gigantesco em relação aos veículos blindados existentes nos anos 1960. A proposta era criar um carro de combate capaz de dominar o campo de batalha europeu contra os blindados soviéticos. Para isso, os engenheiros incluíram no projeto tecnologias extremamente avançadas para a época, como suspensão hidropneumática ajustável, carregador automático, torre de perfil baixo e um canhão de 152 mm capaz de disparar mísseis guiados antitanque.
Se tivesse entrado em produção, o MBT-70 teria sido um dos tanques mais revolucionários de sua geração. No entanto, problemas técnicos, divergências entre os países envolvidos e custos crescentes acabaram transformando o projeto em um dos programas militares mais caros já cancelados.
O contexto da Guerra Fria que levou à criação do MBT-70
Na década de 1960, a OTAN enfrentava uma preocupação estratégica crescente: a enorme quantidade de tanques soviéticos estacionados no leste europeu. Blindados como o T-54, o T-55 e posteriormente o T-62 representavam uma ameaça real em caso de conflito na Europa.
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Os Estados Unidos utilizavam principalmente o M60 Patton, enquanto a Alemanha Ocidental operava o Leopard 1. Embora eficientes, esses tanques já começavam a mostrar limitações diante da evolução das armas antitanque e dos novos conceitos de combate.
Diante desse cenário, Washington e Bonn decidiram desenvolver um novo tanque conjunto, capaz de substituir os veículos existentes e garantir superioridade tecnológica sobre os blindados soviéticos. Em 1963, nasceu oficialmente o programa MBT-70.
O objetivo era claro: criar um tanque que combinasse mobilidade, poder de fogo e proteção em níveis nunca vistos.
Suspensão hidropneumática: um dos recursos mais inovadores do projeto
Um dos elementos mais impressionantes do MBT-70 era sua suspensão hidropneumática ajustável, uma tecnologia extremamente avançada para os anos 1960.
Esse sistema permitia que o tanque alterasse sua altura em relação ao solo, oferecendo diversas vantagens táticas. O veículo podia, por exemplo, “ajoelhar” parcialmente, reduzindo sua silhueta e tornando-se um alvo mais difícil para inimigos.
Além disso, a suspensão também permitia inclinar o tanque para frente, para trás ou para os lados, facilitando o uso do canhão em terrenos irregulares.
Essa capacidade melhorava significativamente a mobilidade em ambientes complexos, como colinas ou terrenos acidentados, algo fundamental para o combate no cenário europeu.
O canhão de 152 mm que também disparava mísseis guiados
Outro aspecto revolucionário do MBT-70 era sua arma principal. Em vez de utilizar apenas projéteis convencionais, o tanque foi projetado com o canhão XM150E5 de 152 mm, capaz de disparar tanto munição tradicional quanto mísseis guiados antitanque MGM-51 Shillelagh.
Essa combinação representava uma mudança radical no conceito de combate blindado. O míssil Shillelagh podia atingir alvos a distâncias maiores do que os projéteis tradicionais e era guiado por um sistema infravermelho que permitia corrigir sua trajetória durante o voo.
Na teoria, isso daria ao MBT-70 uma vantagem significativa contra tanques inimigos, permitindo destruir blindados adversários antes mesmo que eles entrassem no alcance de seus próprios canhões.
Apesar do conceito inovador, o sistema apresentou diversos problemas técnicos durante os testes, o que acabou contribuindo para as dificuldades do programa.
Carregador automático e tripulação reduzida
Ao contrário da maioria dos tanques da época, que possuíam quatro tripulantes, o MBT-70 foi projetado para operar com apenas três militares.
Isso foi possível graças ao uso de um carregador automático, que substituía o operador responsável por inserir manualmente as munições no canhão.
A redução da tripulação tinha várias vantagens. Um tanque com menos pessoas exigia menos espaço interno, o que permitia reduzir o tamanho da torre e diminuir a silhueta do veículo. Além disso, menos tripulantes significavam menor peso total e mais espaço para sistemas eletrônicos e munição.
Contudo, essa configuração também trouxe desafios ergonômicos e operacionais, principalmente porque o projeto incluía uma característica ainda mais incomum.
A decisão incomum de colocar o motorista dentro da torre
Talvez o aspecto mais estranho do MBT-70 fosse a posição do motorista. Diferentemente da maioria dos tanques, onde o condutor fica no casco frontal, o motorista do MBT-70 ficava dentro da torre rotativa, junto com o comandante e o artilheiro.
Para permitir isso, o assento do motorista era instalado em um sistema rotativo que mantinha sua posição sempre voltada para frente, independentemente da direção da torre.
Na teoria, essa solução permitiria que a tripulação permanecesse reunida em um único compartimento blindado. Na prática, porém, o sistema se mostrou complexo e desconfortável durante os testes.
Tecnologia avançada, mas extremamente cara
Embora o MBT-70 fosse tecnologicamente impressionante, o projeto começou a enfrentar problemas rapidamente.
As exigências técnicas elevadas tornaram o tanque extremamente caro de desenvolver. O custo unitário previsto inicialmente aumentou drasticamente ao longo do programa.
Além disso, surgiram divergências entre engenheiros americanos e alemães sobre diversos aspectos do projeto, incluindo armamento, sistemas eletrônicos e filosofia de design. Essas diferenças acabaram dificultando o avanço do programa e atrasaram repetidamente os testes.
O cancelamento de um dos projetos mais ambiciosos da Guerra Fria
Em 1969, diante dos custos crescentes e das divergências técnicas, a Alemanha Ocidental decidiu abandonar o projeto. Pouco depois, os Estados Unidos também cancelaram oficialmente o programa em 1971. No total, cerca de 14 protótipos haviam sido construídos para testes.

Embora nunca tenha entrado em produção, o MBT-70 deixou um legado importante. Muitas das tecnologias testadas durante o projeto acabaram influenciando o desenvolvimento de tanques posteriores.
Nos Estados Unidos, parte das pesquisas contribuiu para o desenvolvimento do M1 Abrams, que entrou em serviço no início da década de 1980. Já na Alemanha, o aprendizado obtido ajudou no desenvolvimento do Leopard 2, considerado um dos melhores tanques do mundo.
Um projeto que mostrou os limites da ambição tecnológica
O MBT-70 representa um exemplo clássico de como projetos militares extremamente avançados podem enfrentar dificuldades práticas. Ao tentar incorporar muitas tecnologias inovadoras ao mesmo tempo, o programa acabou se tornando complexo demais, caro demais e difícil de implementar dentro do prazo e do orçamento.
Mesmo assim, o projeto permanece como um dos experimentos mais fascinantes da história dos blindados. Ele demonstrou o potencial de conceitos que hoje são comuns em tanques modernos, como suspensões avançadas, automação e sistemas de armamento sofisticados.
Embora nunca tenha entrado em combate, o MBT-70 continua sendo lembrado como um dos tanques mais futuristas já projetados durante a Guerra Fria.

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