Construção artesanal nas montanhas de Santa Catarina chama atenção pela persistência de um aposentado que ergueu sozinho uma casa de pedra durante duas décadas, moldando mais de duas mil rochas manualmente e transformando um projeto pessoal em atração curiosa para visitantes do Vale do Itajaí.
No interior de Rodeio, no Médio Vale do Itajaí, um aposentado transformou duas décadas de trabalho solitário em uma construção que chama atenção pela resistência e pela originalidade.
Sem planta, sem engenheiro e sem ajuda fixa na obra, Dionísio Bertou levantou uma casa de pedra com dois andares, moldada a partir de mais de 2 mil rochas talhadas manualmente em uma área de montanha cercada por verde.
A estrutura começou a ser erguida em 1995 e, segundo o próprio morador, levou cerca de 20 anos para ficar pronta.
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Basta mistura cimento e resina acrílica e surge uma tinta emborrachada que promete impermeabilizar lajes, pisos e calçadas: fórmula simples com pigmento, secagem em 24 horas e até duas demãos extras de resina para reforçar a resistência à água.
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O resultado contrasta com o padrão mais comum da região, marcada por casas de madeira ou alvenaria.
Ali, porém, a escolha foi outra desde o início: fazer tudo em pedra, numa decisão que ele sustenta como projeto de vida e também como marca pessoal.
Casa de pedra construída sem projeto no Vale do Itajaí

Dionísio conta que não aprendeu o ofício com pedreiro nem trabalhou com desenho técnico antes de começar.
A obra saiu, como ele resume, de um raciocínio construído no próprio canteiro, pedra por pedra.
“Tudo da minha cabeça“, afirmou ao explicar que definia encaixes, alturas e proporções conforme a construção avançava, sem recorrer a croquis ou cálculo formal.
A decisão de construir em pedra também nasceu de uma reação ao senso comum.
Enquanto via outras pessoas optarem por madeira ou tijolo, ele decidiu seguir no caminho mais difícil.
A ideia, que no começo despertou estranhamento, virou realidade com insistência diária, num processo em que o improviso não significava descuido, mas adaptação contínua a cada peça escolhida e trabalhada à mão.
Mais de 2 mil pedras talhadas e milhões de marretadas
Cada rocha precisou ser ajustada individualmente para caber na estrutura.

Dionísio relata que as pedras foram talhadas com precisão, em um trabalho repetitivo e pesado, feito com ponteiro e marreta.
Ao tentar dimensionar o esforço acumulado ao longo dos anos, ele calcula ter dado mais de 5 milhões de marretadas, número que usa para traduzir o desgaste físico envolvido no processo.
O custo desse método aparece no próprio corpo.
Em seu relato, ele lembra que muitas vezes errava o golpe ao tirar um canto da pedra e acabava atingindo a mão.
Ainda assim, manteve o ritmo.
O serviço avançou de forma artesanal, sem equipamentos sofisticados e sem linha de produção, o que ajuda a explicar por que a casa acabou se tornando também um retrato material da persistência do morador.
Influência da imigração italiana na construção
Descendente de italianos, Dionísio associou a construção a uma homenagem familiar.
A referência veio das antigas edificações rústicas ligadas à imigração europeia, presença que marca a história de Rodeio desde o fim do século 19.
No município, a colonização por famílias de origem trentina e italiana faz parte da formação local, o que ajuda a contextualizar a escolha estética e afetiva do aposentado.

A opção pelo material não teve apenas valor simbólico.
Sem pintura, sem reboco e com uso reduzido de madeira, a casa diminui problemas recorrentes de manutenção, como cupins e desgaste frequente de acabamento.
Segundo o morador, a estrutura também oferece conforto térmico: permanece mais fresca no verão e mais acolhedora no inverno, combinação que reforça o caráter funcional da obra.
Interior da casa também foi feito pelo próprio morador
O mesmo espírito que guiou as paredes se repete nos cômodos.
Dionísio afirma que fez a própria cama recentemente, usando madeira de eucalipto e aproveitando um galho torto como parte do desenho da peça.
Na parede, outro detalhe chama atenção: uma guitarra produzida por ele, sinal de que o trabalho manual ultrapassa a construção da casa e alcança também objetos de uso cotidiano e expressão pessoal.
A renda apertada, descrita por ele como equivalente a um salário mínimo, impõe limites a reformas e acabamentos mais caros.
Mesmo assim, a falta de luxo não aparece como ausência de identidade.
O interior foi sendo preenchido pelo tempo, por peças produzidas pelo próprio morador e por escolhas moldadas mais pela necessidade e pela habilidade do que por padrão decorativo ou consumo.
Casa de dois andares impressiona visitantes
A casa tem dois pavimentos, e o andar superior amplia a impressão de solidez que a obra transmite a quem visita o local.
Em seu relato, Dionísio diz que pessoas que passaram pela propriedade se surpreenderam com o fato de a construção não apresentar trincas mesmo décadas depois do início da obra.
A observação aparece como um dos pontos que mais despertam curiosidade sobre a resistência da estrutura.
No alto da casa, ele observa a paisagem das montanhas como quem vigia um território moldado pelo próprio esforço.
A cena reforça a dimensão pessoal do projeto, que mistura moradia, memória familiar e obstinação.
Ao mesmo tempo, ajuda a explicar por que a construção deixou de ser apenas uma residência rural para virar atração entre visitantes que chegam ao local atraídos pela história do homem que decidiu erguer sozinho a própria fortaleza de pedra.
Vida simples, música e planos de mudança
Apesar do apego à casa, Dionísio também fala sobre a vontade de mudar de vida.
Depois de ter ido três vezes à Itália, passou a mencionar a possibilidade de vender o imóvel e aproveitar o tempo fora do Brasil.
O plano aparece ligado à condição de viver sozinho e ao desejo de desfrutar a aposentadoria de outra forma, embora a ligação com a propriedade siga evidente em cada detalhe construído por suas mãos.
Nem por isso a rotina se resume à lembrança do passado.
Além da experiência como lavrador e do histórico ligado a atividades como ceraria, caminhão e trator, ele mantém o hábito de cantar e compor.
“Parado jamais“, resume.
A frase ajuda a condensar o perfil de um homem que, mesmo aposentado, continua associado ao fazer manual e à disposição de transformar trabalho em permanência concreta.

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