Startup brasileira de biotecnologia, a Bioinfood recebe R$ 3 milhões da FINEP para escalar leveduras inovadoras que elevam a eficiência dos biocombustíveis e aumentam o rendimento do etanol, fortalecendo a competitividade industrial do Brasil.
A Bioinfood, startup brasileira de biotecnologia fundada em 2018, anunciou um avanço relevante no desenvolvimento de leveduras aplicadas à produção de biocombustíveis, com foco direto no aumento da eficiência do etanol. Segundo matéria publicada pela Revista Exame nesta terça-feira (3), a iniciativa ganhou novo impulso após a aprovação de um financiamento de R$ 3 milhões da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), por meio do programa de apoio à Comercialização de Propriedade Intelectual.
O recurso será utilizado para escalar uma tecnologia baseada em patente da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com aplicação prática na fermentação industrial. Segundo a empresa, a inovação permite elevar o rendimento do etanol por quilo de matéria-prima, reduzir custos operacionais e suportar condições industriais adversas.
Em um país que produziu mais de 30 bilhões de litros de etanol nas últimas safras, conforme dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), ganhos de eficiência representam impacto direto na competitividade internacional do setor.
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Bioinfood desenvolve leveduras mais eficientes para ampliar o rendimento do etanol
O diferencial da Bioinfood está na engenharia e no aprimoramento genético de leveduras voltadas especificamente à indústria de etanol. Diferentemente das cepas usadas na panificação ou na produção de cerveja, os microrganismos desenvolvidos pela startup são projetados para operar em fermentadores que podem atingir até 3 milhões de litros.
Segundo Gleidson Teixeira, cofundador e geneticista da empresa, a aplicação da fermentação desenvolvida pela startup durante a conversão da cana-de-açúcar em etanol permite atingir maior produção por quilo de matéria-prima, em menos tempo e sob condições mais severas.
A tecnologia atua em dois pilares principais: eficiência metabólica e robustez industrial. No primeiro, as leveduras são capazes de produzir enzimas que convertem açúcares normalmente desperdiçados no processo convencional. No segundo, os microrganismos suportam calor, estresse osmótico e exposição ambiental típica das usinas brasileiras.
Em testes realizados com um dos principais grupos de biocombustíveis do país, a levedura BFY264 apresentou desempenho superior à referência do setor em três indicadores-chave: maior viabilidade celular de 23%, maior frequência de brotamentos de 16% e aumento de 8,7% no rendimento em etanol. Os resultados indicam ganho de eficiência produtiva sem ampliação do volume de matéria-prima utilizado.
Aplicação em diferentes segmentos de biocombustíveis fortalece estratégia da startup
O projeto apoiado pela FINEP prevê expansão da aplicação das leveduras para três segmentos estratégicos do mercado de biocombustíveis. O primeiro é o etanol de cana-de-açúcar, base histórica da matriz renovável brasileira. O segundo é o etanol de milho, que já representa cerca de 20% da produção nacional. O terceiro envolve o etanol de segunda geração, produzido a partir do reaproveitamento do bagaço da cana.
Essa diversificação amplia o potencial de impacto da tecnologia. O avanço no etanol de segunda geração, por exemplo, é considerado estratégico para elevar o aproveitamento energético da biomassa e reduzir desperdícios industriais.
Ao ampliar a conversão de açúcares complexos e resíduos vegetais, as leveduras desenvolvidas pela Bioinfood podem contribuir para maior eficiência global do sistema produtivo.
Modelo de negócio da Bioinfood reduz custos e riscos para a indústria
A Bioinfood opera no modelo conhecido como “R&D as a service”. Na prática, a startup desenvolve soluções biotecnológicas sob demanda, desde a concepção até a escala comercial, reduzindo o risco de investimento para seus clientes.
Segundo a empresa, companhias que terceirizam pesquisa e desenvolvimento podem economizar até 70% dos custos em comparação à criação de uma estrutura interna própria. Isso significa evitar investimentos elevados em laboratórios, contratação de equipes especializadas e aquisição de equipamentos de alta complexidade.
No mercado de etanol, onde margens operacionais podem ser pressionadas por fatores climáticos e variações internacionais de preço, a redução de custos e o ganho de eficiência são decisivos.
A startup também aposta na proximidade com o cliente brasileiro como diferencial competitivo. Ao desenvolver leveduras adaptadas à realidade específica de cada usina, a empresa busca oferecer soluções personalizadas, em vez de produtos padronizados.
Financiamento de R$ 3 milhões impulsiona parceria entre startup e universidade
O aporte de R$ 3 milhões da FINEP reforça a estratégia da Bioinfood de utilizar financiamento público como alavanca de crescimento. Desde sua fundação, a empresa já havia sido aprovada no Programa de Inovação em Pequenas Empresas da FAPESP.
Parte do novo recurso será destinada a pessoas, serviços, equipamentos e consumíveis, além da participação efetiva da Unicamp no projeto. A universidade, detentora da patente original, continuará desenvolvendo ensaios e experimentações para aprimorar os microrganismos e otimizar o processo industrial.
A professora Rosana Goldbeck, da Unicamp, destacou que a aprovação do projeto fortalece a aproximação entre academia, indústria e startups. Segundo ela, fomentar inovação e consolidar laços entre universidades e empresas de base tecnológica é fundamental para ampliar a competitividade nacional. Esse modelo de cooperação é considerado essencial para acelerar a transferência de tecnologia da pesquisa científica para o mercado.
Etanol brasileiro ganha eficiência e reforça competitividade global
O Brasil ocupa posição estratégica no mercado global de biocombustíveis. O etanol de cana-de-açúcar apresenta menor intensidade de carbono quando comparado a combustíveis fósseis e, em muitos casos, menor pegada ambiental do que o etanol de milho produzido em outros países.
Com o crescimento da demanda global por fontes renováveis, impulsionada por metas climáticas e políticas de descarbonização, ganhos de produtividade tornam-se ainda mais relevantes.
Ao elevar o rendimento por quilo de matéria-prima e reduzir custos operacionais, as leveduras desenvolvidas pela startup podem fortalecer a posição do Brasil como fornecedor competitivo de etanol.
Além disso, o aumento de eficiência contribui para reduzir desperdícios e ampliar a sustentabilidade do processo produtivo, fatores cada vez mais valorizados em mercados internacionais.
Da aveia ao etanol: inovação aplicada à bioeconomia
A trajetória da Bioinfood inclui projetos que extrapolam o setor de biocombustíveis. Um dos exemplos mais representativos é a parceria com a SL Alimentos, responsável por cerca de 80% da produção nacional de aveia.
Nesse caso, a empresa desenvolveu tecnologia capaz de transformar casca de aveia, antes considerada resíduo, em xilitol, um açúcar de baixo valor calórico. O projeto recebeu reconhecimento internacional como tecnologia inovadora em sustentabilidade em feira do agronegócio.
A lógica aplicada é semelhante à utilizada no etanol: ressignificar resíduos, aumentar eficiência e gerar valor a partir de insumos que seriam descartados. Esse posicionamento reforça a inserção da startup na agenda de bioeconomia, tema considerado estratégico para o Brasil nas próximas décadas.
Desafios estruturais e metas ambiciosas até 2030
Apesar dos avanços, a Bioinfood enfrenta desafios comerciais relevantes. O mercado de insumos biológicos para etanol é dominado por multinacionais com forte estrutura comercial e contratos consolidados.
A startup reconhece a dificuldade de entrada em um setor onde concorrentes têm capacidade de firmar contratos longos e exercer pressão competitiva. Ainda assim, aposta na diferenciação tecnológica e no relacionamento próximo com clientes como estratégia de crescimento.
A empresa projeta crescimento de 100% para 2026, após registrar expansão de 10% entre 2024 e 2025. A meta é crescer 50% ao ano até 2030, ampliando laboratório, incorporando novas expertises em biologia sintética, bioinformática e inteligência artificial e expandindo o time. O objetivo declarado é tornar-se, até 2030, o maior centro de avanço em deep techs para a bioeconomia no Brasil e referência na América Latina.
O papel da biotecnologia no futuro dos biocombustíveis brasileiros
O avanço anunciado pela Bioinfood evidencia uma tendência clara: a biotecnologia será determinante para o futuro do etanol e dos biocombustíveis no Brasil. Ao desenvolver leveduras mais eficientes e resistentes, a startup contribui para aumentar produtividade, reduzir custos e fortalecer a sustentabilidade industrial.
O apoio da FINEP e a parceria com a Unicamp demonstram que a integração entre ciência e mercado pode gerar inovação aplicada. Em um cenário de transição energética e busca por descarbonização, soluções biotecnológicas tornam-se peça-chave para consolidar o protagonismo brasileiro no setor.
Se conseguir escalar sua tecnologia, a Bioinfood poderá não apenas competir com multinacionais, mas também posicionar o país como exportador de inovação em biocombustíveis, reforçando a competitividade global do etanol nacional.

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