Depois de aprender a ler sozinho com uma carta de ABC, agricultor de uma ilha distante volta à escola pública, termina o Ensino Médio e se prepara para disputar uma vaga em Direito
Aos 72 anos, o agricultor de uma ilha distante que passou a vida inteira na roça decidiu fazer algo que muitos consideram improvável nessa idade: voltar para a sala de aula, concluir o Ensino Médio e se preparar para disputar uma vaga em Direito. Depois de décadas dedicadas ao trabalho no campo e à criação dos quatro filhos, ele finalmente conseguiu transformar em plano aquilo que sempre foi um sonho guardado em silêncio.
Durante anos, a escola parecia um lugar inacessível. O trabalho começou cedo, a responsabilidade com a família veio antes dos cadernos, e o estudo foi sendo empurrado para depois.
Ainda assim, o agricultor de uma ilha distante nunca se conformou com a ideia de terminar a vida sem entender as letras, as leis e o mundo além das cercas da propriedade.
-
A vila brasileira única onde não tem asfalto, energia elétrica quase não chega, carro não entra e a luz da Lua vira atração entre dunas e ruas de areia, chamando a atenção de mais 1,5 milhão de turistas por ano
-
Em pleno interior paulista, uma cidade que já foi lar de dinossauros chama a atenção do mundo: o “Jurassic Park” com mais de mil pegadas de dinossauro fossilizadas de 135 milhões de anos é algo realmente fascinante
-
A CIA construiu em segredo o Glomar Explorer, o maior navio de mineração do mundo, usou o bilionário Howard Hughes como fachada e tentou levantar do fundo do Pacífico, a quase 5.000 metros de profundidade, um submarino nuclear soviético de 1.700 toneladas em uma das operações mais audaciosas da Guerra Fria
-
Quanto custa construir uma casa de 100 m² em 2026
Agora, já aposentado, ele usa o uniforme da escola pública, copia conteúdos do quadro e repete, com calma, que vai chegar à faculdade de Direito.
Da enxada à carta de ABC
A história começa na infância, quando o trabalho no campo surgiu antes de qualquer caderno. Desde os sete anos, o futuro agricultor de uma ilha distante já ajudava na lida da terra, acordando cedo para garantir o sustento da família.
Escola, naquela época, era um luxo distante. Não havia professor por perto, nem transporte, nem tempo.
A curiosidade, porém, falava mais alto. Aos 12 anos, ele conseguiu uma antiga “carta de ABC”, um pequeno livro didático usado para alfabetizar crianças. Sem professor, decidiu aprender por conta própria.
Ele saía pelas estradas de terra procurando alguém que soubesse ler, pedia para explicarem a lição, decorava, voltava para casa e estudava sozinho. Cada palavra descoberta era uma vitória.
Aquela carta de ABC virou o primeiro “curso intensivo” de leitura de um menino que ainda não sabia que um dia sonharia em ser bacharel em Direito.
Quando o sonho precisou esperar

Mesmo com vontade de estudar, a vida exigiu outras prioridades. O agricultor de uma ilha distante costumava pensar que, se fosse para a escola como desejava, não teria como alimentar os filhos.
Era preciso escolher entre o caderno e o prato na mesa, e a escolha, naquele momento, era óbvia.
A família cresceu, o trabalho se acumulou e os anos foram passando. “Naquele tempo, tudo era difícil, principalmente para quem morava longe e tinha pouco dinheiro”, ele costuma lembrar.
A vontade de estudar nunca desapareceu, mas ficou guardada. Ele repetia para si mesmo que um dia, quando os filhos estivessem criados, viria a oportunidade de voltar aos estudos.
Esse dia demorou, mas chegou. Depois de se aposentar, decidiu que já não dava mais para adiar o sonho.
Volta à escola e rotina de Ensino Médio
A retomada dos estudos veio em 2012, quando o agricultor de uma ilha distante finalmente entrou em uma sala de aula de forma regular. De lá para cá, a rotina mudou completamente.
Hoje, ele é aluno da 2ª série do Ensino Médio em uma escola pública em tempo integral, localizada a vários quilômetros da comunidade onde mora.
A distância não é desculpa. Quando o transporte escolar falha por algum motivo, ele pega a bicicleta e vence o percurso, pedalando quilômetros até a escola.
Na fila do lanche ou do almoço, faz questão de ficar com os demais estudantes, sem pedir prioridade por ser mais velho, porque quer ser tratado como qualquer aluno.
Caderno em mãos, ouve as explicações com atenção, faz perguntas, anota tudo o que considera importante e tenta transformar cada conteúdo em degrau rumo à faculdade.
Avô e neto na mesma sala de aula

Além de aluno aplicado, o agricultor de uma ilha distante é também avô. Entre os seus netos, um deles, de 20 anos, divide a mesma sala de aula. Antes da suspensão das aulas presenciais no período da pandemia, avô e neto copiavam o mesmo conteúdo e faziam trabalhos em grupo lado a lado.
O neto diz se sentir privilegiado por viver essa experiência. Para ele, o avô é um exemplo de coragem e superação, respeitado por toda a turma.
Quando o professor anuncia atividade em grupo, o avô é um dos primeiros a olhar para o neto e chamá-lo para trabalhar junto, como se quisesse mostrar, na prática, que estudo também é uma forma de aproximar gerações.
O que poderia gerar constrangimento para alguns, para eles virou motivo de orgulho.
Um aluno que inspira professores e colegas
Na escola, a presença do agricultor de uma ilha distante mexe com toda a comunidade. A direção e os professores descrevem o estudante como alguém que leva a sério cada compromisso: quase não falta, só em situações extremas, entrega as atividades, participa das aulas e mantém uma curiosidade constante sobre os temas.
Os educadores reconhecem que, muitas vezes, aprendem mais com ele do que ele com a escola. A forma como enfrenta a distância, a idade e as dificuldades para seguir estudando inspira os colegas mais jovens, que passam a olhar o ensino médio com outros olhos.
Na prática, ele se tornou um lembrete diário de que a educação não tem prazo de validade e de que a disposição para aprender pode atravessar décadas.
Direito, Vade Mecum e o sonho que não envelhece
A afinidade com o Direito não surgiu agora. Há muito tempo, o agricultor de uma ilha distante imaginava como seria estudar leis, interpretar códigos e atuar na área jurídica. Em 2019, a escola lhe deu um presente simbólico: um Vade Mecum, livro de referência na área, que ele desejava havia anos.
Receber aquele volume pesado de páginas cheias de artigos e incisos foi, para ele, mais do que um gesto de carinho.
Foi um sinal de que o sonho estava ganhando forma. Ele gosta de dizer que, se tivesse estudado desde criança, já teria disputado muitos cargos, talvez até o de juiz de Direito.
Hoje, mesmo sem querer adiantar o futuro, ele se prepara para terminar o Ensino Médio e tentar uma vaga em um curso de Direito, seja presencial ou a distância, em uma instituição que o aceite com a mesma abertura que a escola demonstrou.
Quebra-cabeças, disciplina e recado aos mais jovens
Nas aulas, o agricultor de uma ilha distante costuma dizer que gosta de todas as disciplinas. Algumas, para ele, são verdadeiros “quebra-cabeças”, não tão simples de compreender logo na primeira explicação. Em vez de desanimar, ele vê isso como desafio.
Quanto mais difíceis os exercícios, mais ele se sente instigado a aprender.
E é justamente para os jovens que ele direciona seu recado mais firme. Na visão dele, se o jovem pensasse um pouco, não desistiria tão fácil da escola.
Para ele, o estudo é o que “bota a pessoa para frente”, abre portas de trabalho, permite se tornar autoridade em alguma área e construir uma vida diferente. “Ninguém consegue nada de mão beijada”, costuma repetir. Se não foi possível realizar esse sonho na juventude, ele garante que vai conseguir na terceira idade.
Diante de uma história como a do agricultor de uma ilha distante, que aprende a ler sozinho, volta à escola aos 72 anos e ainda quer disputar uma vaga em Direito, você acha que idade ainda pode ser desculpa para abandonar os estudos ou conhece alguém que também retomou a escola depois de adulto?

-
-
-
-
-
26 pessoas reagiram a isso.